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 16/01/2021 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
English  
 UNIVERSAL ISSUES 
UNIVERSAL ISSUES / Eis que raia a Era de Aquário: leitura astrológica para o planeta Terra, em tempos de Grande Mutação
Pepe Escobar entrevista Vanessa Guazzelli
Date of publication at Tlaxcala: 23/12/2020
Original: Behold the dawning of the Age of Aquarius
Interview with astrologer Vanessa Guazzelli

Translations available: Français 

Eis que raia a Era de Aquário: leitura astrológica para o planeta Terra, em tempos de Grande Mutação
Pepe Escobar entrevista Vanessa Guazzelli

Pepe Escobar Пепе Эскобар پپه اِسکوبار

Translated by  Coletivo de tradutores Vila Mandinga

 

 Estamos todos no esgoto, mas alguns de nós olham para as estrelas.

Oscar Wilde

‘Esse mar é chamado Mar Vermelho, e as 12 Tribos do Egito navegam por ele.
Saibam todos que esse mapa virem, que a água não é vermelha, só o fundo do mar tem essa cor.
Por esse mar passam muitas das especiarias que chegam a Alexandria, vindas da Índia.”
(Do
Atlas Catalão, 1375)*



A Grande Conjunção de Júpiter e Saturno está sobre nós e não há como olhar para trás

Hoje todas as rádios no Planeta Terra deveriam estar tocando essa canção. Hoje, “5ª Dimensão”, título tão adequado, imortalizado na alma psicodélica clássica, é literalmente real: eis que raia a Era de Aquário – a Grande Conjunção de Júpiter e Saturno, dia 21 de dezembro, grau zero de Aquário.

Aquário inicia bem quando algumas elites malévolas, autodeclaradas importantes, fazem de tudo para impor um Grande Reset em quase todo o planeta – seguindo agenda política muito específica, reducionista e excludente. Pois o evento que realmente tudo muda não é o Reset: é a Mutação.

Implica dizer que estamos todos em algo muito maior que qualquer cenário neo-Orwelliano. Para lançar luz muito necessária sobre as que parecem ser nossas atuais, intermináveis trevas, propus algumas perguntas selecionadas a Vanessa Guazzelli, mundialmente respeitada astróloga, escritora e conferencista, além de psicóloga e psicanalista ativa.

Que a astrologia fertilize a geopolítica. Que entre o sol.



Mapa astrocartográfico da Grande Mutação

 

 

  Tudo que pesa ganha leveza

Pepe Escobar (PE): Pode-se dizer que bem pouca gente em todo o mundo sabe que uma conjunção Júpiter-Saturno, nesse dia 21 de dezembro, parece representar mudança absoluta no jogo. Astrólogos especialistas sérios a definem como “a Grande Mutação”.

Você pode, por favor, falar sobre o que realmente significa, astrologicamente essa Mutação, que parece acontecer a cada 200 anos? E voltando à vida e à política de todos os dias: podemos inferir paralelos geopolíticos disso que as estrelas nos dizem?

http://tlaxcala-int.org/upload/gal_23868.jpg

Vanessa Guazzelli (VG): Falamos de “Grande Mutação”, quando conjunções Júpiter-Saturno trocam elementos, o que acontece a cada 200 anos, como você disse. Júpiter e Saturno estão em conjunção, astrologicamente, por longitude eclíptica, a cada 20 anos, período nem tão longo. Mas continuam a ter intersecções em signos do mesmo elemento por 200 anos, com a possibilidade de outra transição de 40 anos, indicando um ciclo maior.

Júpiter e Saturno são o que chamamos “planetas sociais”, e devem ser considerados em relação à política e à geopolítica. Quando a conjunção Júpiter-Saturno começa efetivamente a acontecer no elemento seguinte, marca a Grande Mutação, denotando importantes mudanças socioeconômicas e culturais. É o que está acontecendo agora.

Viemos de um período de dois séculos de conjunção em signos de Terra. A ênfase esteve na matéria e nas dimensões mais tangíveis da vida – meninos e meninas materiais[1] em mundo material. Agora, quando nos movemos para o elemento Ar, quando Júpiter-Saturno entram em conjunção no grau zero de Aquário, tem-se um chamamento para a sublimação.

Tudo que é sólido ganha leveza, o que pesa flutua no ar. Coisas e procedimentos podem ser menos materiais e mais digitais e, em certa medida, virtuais. Mas não só isso. Ideias e ideais partilhados ganham ainda mais importância. Mais do que o que tenhamos materialmente, importante é com quem e por que temos o que temos. Colaboração e cooperação são, agora mais que nunca, os ventos que farão girar o mundo.

O que acontece dia 21/12, às 18h20 UTC. Em partes da Ásia e Oceania, já passará de meia-noite, já 22/12.

Não é só a Grande Mutação, mas uma Grande Conjunção, quando os dois planetas mais distantes conjuntam-se, não só por longitude, mas também por latitude (coordenadas eclípticas), por right ascension e declinação (coordenadas equatoriais). Significa que não só estão alinhados na mesma direção, mas que estão realmente próximos um do outro, no céu como visto da Terra, quase como se fossem uma e a mesma estrela.

Antes, os dois corpos celestes só estiveram assim próximos em 1623, Mas não foi uma Grande Mutação, apenas uma conjunção regular, em temos de longitude eclíptica. Astrologicamente, o fato de que todos esses reforços aconteçam juntos ao mesmo tempo, intensifica a significação do que essa conjunção indica agora, o poder da mutação que aí se assinala.

Na vida diária, também fala de um aumento no desenvolvimento tecnológico, digitalização de coisas e procedimentos, incluindo criptomoedas e dinheiro digital, como uma espécie de dinheiro “sublimado”: da matéria, para “substância” mais leve, menos material, que pode rapidamente circular pelo ar.

Num plano mais pessoal, tendemos a perder interesse pelos contextos sociais que não estejam sintonizados com nossas ideias e nossos ideais, e somos atraídos para grupos, associações e projetos que estejam no mesmo comprimento de onda em que estamos. Não é hora para simplesmente confiar que instituições cuidarão das pessoas; é hora para decidir por nós mesmos, cada um por si, e depois nos conectarmos com outros com interesses, ideais, objetivos dos quais partilhamos.

O elemento Ar é onde abrimos espaço e criamos lugar para o Outro, seja por respeito às diferenças, ou para colaborar e cooperar na direção dos interesses e projetos partilhados. Cooperar, onde cada participante recebe fatia justa, proporcional, numa empreitada conjunta, é com certeza a via a escolher.

Aquário é o oposto ao signo centralizador de Leão. Geopoliticamente, quer dizer que não é hora para que uma única estrela hegemonista, governe o mundo. É hora para muitas estrelas iluminarem todo o céu. Não é hora para império único. Podemos ter impérios, se forem impérios, no plural. A força das nações poderosas está agora, mais que nunca, na qualidade das respectivas parcerias e alianças, em respeito mútuo, entre iguais.

Qualquer potência que perca de vista essa chave crucial, conhecerá o revide, no curto ou no longo prazo. Alguns são mais poderosos que outros e alguns serão mais proeminentes que outros. Seja como for, não estão sozinhos. É tempo de mundo multipolar – agora, o Mandato do Céu é esse.

Observando o mapa astrocartográfico da Grande Mutação, que mostra as linhas das posições planetárias sobre a face da Terra, é interessante observar que o “Fundo do Céu” (lat. Imum Coeli, IC), que é a raiz de um mapa astrológico das linhas de Júpiter e Saturno, passa por Pequim, indicando a relevância da China na fundação desse ciclo de 200 anos.

No ‘polo’ oposto do globo, vê-se que o “Meio do Céu” (lat. Medium Coeli) lat. Meio do Céu) das linhas dos dois planetas passam pela América do Sul (Venezuela, Amazônia Brasileira, Bolívia, Argentina), mostrando o valor dos recursos do continente nesse ciclo.

O que quer a turma de Davos

PE: Nossa turbulenta atual conjuntura parece apontar para crescente biossegurança e o que algumas análises sistêmicas sérias definem como tecno-feudalismo (em ing. e em port.) Tudo isso implica hiperconcentração de poder – e não só poder exercido pelo hegemon geopolítico, os EUA. Deve-se esperar agora alguma mutação séria do sistema-mundo – como estudado por Immanuel Wallerstein, no sentido de mudanças sérias para nosso sistema capitalista?



Immanuel Wallerstein (1930-2019)



VG:  Sim, estamos no próprio ponto de virada do sistema-mundo. Com a Grande Mutação, outro aspecto dos anos 2020s imensamente significativo é a conjunção Saturno-Netuno, em fevereiro de 2026, no grau zero de Áries. É precisamente o primeiro grau de todo o Zodíaco, chamado Vernal Point – crucial na interpretação astrológica.

Saturno e Netuno ficam em conjunção a cada 36 anos, o que, como ciclo histórico, é relativamente curto. Contudo, como com a Grande Mutação, o modo como ocorre e onde ocorre no Zodíaco pode nos levar a perspectivas históricas mais amplas e indicam momentos históricos mais expressivos.

Se voltamos 7.000 anos, essa conjunção só ocorreu no Ponto Vernal em 4361 A.C. e em 1742 A.C. Se olhamos 3.000 anos à frente, o mais perto que se chega do Ponto Vernal é no grau 3 de Áries, em 3172. Muito rara. Assim, essa conjunção no 1º grau do Zodíaco, zero grau de Áries – bem no começo – não é pouca coisa.

Netuno emprenha e concebe; Saturno faz referência à estrutura concreta da realidade; e grau zero de Áries significa o novo brotando. Saturno-Netuno no grau zero de Áries significa uma nova concepção de realidade.

Aspectos entre Saturno e Netuno, pela observação histórica, estão associados com socialismo e comunismo – esses movimentos na Terra coincidem com contatos de passagem entre esses dois planetas no céu. Está provado, historicamente, na astrologia mundana. Sobretudo, isso não nos fala só do passado, posto que, de fato, está a ponto de começar – avançando e aprimorando-se, reconfigurando-se em formas ainda novas de socialismo.

Segundo Wallerstein, durante a crise estrutural que caracteriza o período final de um sistema-mundo, uma bifurcação do sistema pode pender para uma ou outra direção, ou para múltiplos sistemas. Ano passado, pouco antes de morrer, o autor considerava que estaríamos no meio da crise estrutural do capitalismo, que dura entre 60 e 80 anos.

Diria que nesse momento estamos ultrapassando o ponto médio. Pode inicialmente se encaminhar para sistemas múltiplos, em dois ramos: por um lado, o frescor dos ventos orientais inspirando socialismo e multipolaridade mediante a Iniciativa Cinturão e Estrada, e a integração da Eurásia e seus parceiros; por outro lado, o redemoinho do império em colapso e seus aliados ocidentais como cyborg exterminador operado pelo perverso 0,0001% tão ocos de qualquer vida que não conseguem conceber o direito de outro povo à existência.

Quando pela primeira vez ouvi falar do assunto, em junho de 2020, surpreendeu-me que tivessem ‘marcado’ o “Grande Reset” para janeiro de 2021, tão próximo da Grande Mutação no final de dezembro de 2020. Duvido que seja mera coincidência, ou fenômeno de “sincronicidade”. Consta que J P Morgan teria dito que milionários não precisam de astrólogos, mas bilionários, sim.

Possivelmente sabedores dessa grande transição, o pessoal de Davos parece estar realmente tentando fazer o reset do sistema que já comandam com regras suas, e reviver o sistema moribundo, como cyborg saído do inferno.

 



‘Bolhas de Wall Street – nunca mudam’, cartun de Kepler, 1901, mostra J.P. Morgan como touro que sopra bolhas de sabão para investidores frenéticos.

O potencial negativo da ênfase aquariana é o controle da sociedade mediante a tecnologia, seja tecno-feudalismo ou, que os deuses nos protejam, tecno-escravidão. Pelo lado luminoso da Força, Aquário tem a ver com um projeto social para sustentar a vida e atender às necessidades do povo. Ambas as dimensões, ou sistemas, podem coexistir por algum tempo na Terra.

As potências ocidentais – para nem falar dos Masters of the Universe, como você diz, que movimentam os cordões – parecem ter muito que andar antes de alcançar estado de cooperação real e respeitosa. Talvez civilizações mais antigas que se encontram no Oriente tenham raiz mais profunda, mais consistente, da qual extrair a sabedoria e a maturidade necessárias nesses tempos desafiadores para a humanidade.

Frequentemente lembrada pela comida e pelos bens comerciados ao longo da estrada, as Rotas da Seda envolveram no passado e envolvem hoje a troca de ideias. É interessante observar o forte lado aquariano ativado nas progressões astrológicas da China, quando a Iniciativa Cinturão e Estrada foi proposta pela primeira vez por Xi Jinping em Astana, em 2013, e como conectava-se ao grau da Grande Mutação (Vênus e Júpiter conjuntos AC em 1º de Aquário).

Quando, alguns anos antes disso Vladimir Putin fez seu histórico discurso de Munique, propondo a Integração da Eurásia, em fevereiro de 2007, havia um aspecto Saturno-Netuno – uma oposição. Quando, na 70ª Assembleia da ONU, ambos, Putin e Xi fizeram discursos longos, fortes e sincronizados, afirmando a multipolaridade do mundo, em 2015, também havia um aspecto Saturno-Netuno – uma quadratura.

O próximo aspecto Saturno-Netuno será a conjunção, em fevereiro de 2026, inaugurando ciclo completamente novo, e podemos esperar que tenha relação com esses movimentos prévios, sempre tendo em mente que o ciclo aponta para multipolaridade e novas formas de socialismo.

O feitiço da Lua Negra

PE: Covid-19 poderia ser interpretada, em certa medida, como o – desagradável – preâmbulo rumo a uma Grande Mutação? Afinal, toda a nova (ir)realidade social representa um sistema de pés para cima: devastação econômica quase total, especialmente entre os pequenos negócios; cancelamento de direitos constitucionais; governos que comandam praticamente por decreto, sem consulta popular; corporações globais que censuram qualquer manifestação de discordância informada; todas as sociedades postas praticamente em prisão domiciliar; grande parte do país reduzido a uma espécie de parque temático totalitário.

VG: Oh, Covid-19 – poderíamos falar longamente só sobre as implicações dela em tantas dimensões, e como pode ser, em boa medida, astrologicamente rastreada. Com certeza pode ser interpretada como o desagradável preâmbulo, com vistas talvez ao Grande Reset. Pode-se pensar nisso, sim.

Experiência coletiva mundial sem precedentes – e experimento. Mesmo assim, serve para sacudir tudo de cima abaixo, transformando nossa própria percepção do tempo, preparando para a concepção de um novo tempo. Para os que prestem atenção, um chamamento para que se ponham mais vivos, mais vivamente, contra todas as possibilidades.



Lua quase negra. Getty/AFP

Até a dicotomia que tanto foi enfatizada entre “ou cuidar da vida ou cuidar da economia”, só ela, mostra o quão absurdo já era aquele mundo. Como tantas pessoas caíram tão facilmente na arapuca de separar aquelas duas coisas, como meio para resistir contra o sistema, e afinal dizer não às demandas da acumulação capitalista! Até verem, na verdade, todos os pequenos negócios devastados, a pobreza aumentando drasticamente, bilionários concentrando a riqueza em níveis ainda mais bizarros.

Algo fundamental a ser considerado é como a doença afetou o corpo humano. A pandemia foi declarada com a Lua Negra (apogeu lunar) em Áries, e isso indica a importância de se estar agudamente presente e capaz de responder, como Michael Jackson dançava, Bruce Lee movia-se e Maria Zakharova responde.

Em outubro, a Lua Negra, esse ponto astrológico que representa a dimensão visceral e instintiva da existência, entrou em Touro, destacando a importância de se ter consciência do modo como a força da vida em nós é condicionada e canalizada, modelando o modo como percebemos nossa própria existência. Por exemplo, como o confinamento do corpo pode confinar – ou não – nossa psique.

Quais os efeitos psicológicos da ausência do toque ou da experiência física de termos constantemente a boca coberta? Não é irrelevante o modo como essas situações afetam nossa psique. Ambos, René Descartes e Wilhelm Reich tinham Lua Negra em Touro. Como estão relacionados corpo e mente? Estão numa dicotomia cartesiana ou estão entretecidos como unidade bioenergética movida pela libido?

Essa é importante questão subjacente em nosso coletivo, até julho 2021.

O destino do império norte-americano

PE: Astrologia na História é cheia de narrativas fascinantes sobre interpretações celestes abrindo caminho para algum movimento político ou militar crucial. Por exemplo, pouco antes da conquista de Bagdá pelos mongóis em 1258, o Grande Khan, Hulegu, consultou o astrólogo da corte, sobre o que estaria por vir. O astrólogo, Husam al-Din, disse que se seguisse seus generais e invadisse Bagdá, as consequências seriam terríveis.

Mas Hulegu então procurou Tusi, polímata e astrônomo xiita. Tusi disse que a invasão seria grande sucesso. O que aconteceu – e Tusi foi admitido ao círculo íntimo de Hulegu. Como se vê, os mongóis – que ergueram o maior império da história – eram grandes fãs do “seguro celestial.” Será que o “seguro celestial” em nossos tempos, poderia prever o destino de outro império – os EUA?

VG:  É verdade, há tantas histórias fascinantes. O fim do Império Bizantino e a conquista de Constantinopla pelo sultão Mehmet II do Império Otomano também foram marcados por uma predição astrológica, da vitória otomana, relacionada a um eclipse.

A volta do Plutão dos EUA acontece em 2022. É evento massivo. É um ciclo de aproximadamente 247 anos. Plutão tem consigo um senso de destino. O retorno de Hades, o senhor dos infernos, também fala do retorno do reprimido, ocultado ou rejeitado. Haverá três momentos exatos durante 2022, e o momento final e definitivo do próximo ciclo de Plutão põe o planeta da morte e da regeneração diante da Lua Negra Lilith em Câncer, em oposição. Karma é dureza, e ‘chega com tudo’.

É ciclo também relacionado ao poder e ao status do poder. Nem tudo será ruim, e haverá momentos vitoriosos, mas há uma mudança na posição do país em relação ao equilíbrio entre as potências mundiais que não é muito fácil de digerir. A luta pelo poder será intensa, externa e internamente, com riscos consideráveis de manifestações destrutivas. O melhor modo de atravessar tais momentos será a purgação – embora seja difícil acreditar que se possa drenar “o pântano” assim, tão facilmente.

É um chamado para transformação profunda, quando se tem de lidar com tudo que sair de debaixo do tapete e com os cadáveres retirados do porão. Para o povo norte-americano é um chamado ao amadurecimento (Saturno em conjuntura com a Lua), compaixão e disposição para mais receptividade humana (oposição de Netuno), deixando que se dissolvam as ilusões e fazendo ver que o império está perdendo hegemonia e status, mas a nação continuará. Que nação serão os EUA para o próprio povo –, quando deixarem de existir sempre em oposição a outros povos?

Não significa que o Império Norte-americano cairá em 2022, mas está colapsando e passará por transformações dramáticas na próxima década.

Uma Renascença distópica

PE: Entre tantas sombras, parece que você está introduzindo um conceito muito esperançoso: “Renascença distópica”. É o exato oposto do que está sendo interpretado amplamente como nosso inevitável futuro neo-Orwelliano. Como você caracterizaria essa Renascença distópica – em termos de luta individual, coletiva, política e cultural?

VG: O conceito emerge precisamente para elucidar a extrema complexidade de nossos tempos. Bem, a parte da Renascença parece bem esperançosa, não? Mas há também a parte distópica. Não é uma renascença utópica, como sabemos bem. Talvez daqui a 200 anos, quando alcançarmos a Grande Mutação rumo ao elemento Água, o mesmo elemento da magnífica Renascença Italiana, a humanidade seja capaz de sentir e de melhor compreender dimensões profundas da vida. Por que não visar à Utopia, na sequência? Mas qualquer coisa que possa vir a acontecer àquela altura, passa por aqui e agora.

É agora que, com essa Grande Mutação especial, uns poucos aspectos astrológicos significativos apontam para mudança real do sistema-mundo. É necessário esse momento crucial no tempo, e esse período ‘de ar’, para fazer ascender as perspectivas, para partilhar ideias e ideais e para compreender o quanto será enriquecedor construir “uma comunidade com futuro partilhado para a toda a humanidade,” nas palavras de Xi Jinping.

É momento de virada muito fortalecido, abrindo novos horizontes, oferecendo a possibilidade de trocas enriquecedoras em mundo multipolar, e com convocação ao socialismo como jamais se viu antes.

Atlas Catalan, detalhe em que se veem familiares de Marco Polo (1254-1324) viajando em caravana de camelos, 1375. Desenho da Escola Espanhola.

Não esqueçamos que esse momento no tempo faz eco ao século 13, quando o veneziano Marco Polo, viajando pelas Rotas da Seda até a Ásia, trouxe de volta à Europa o frescor dos ventos orientais, com notícias da Dinastia Yuan de Kublai Khan, incluindo a “sublimação” do dinheiro para forma mais leve, da moeda ao papel.

Naquele momento havia um stellium (uma concentração de planetas) em Capricórnio, como tivemos em 2020, com a subsequente conjunção Júpiter-Saturno em Aquário (embora não como Grande Mutação), e o ingresso de Plutão em Aquário como também teremos em 2023/2024.

É contexto absurdamente distópico, mas ponto de virada para nova concepção de realidade, com possibilidade de novos horizontes surpreendentes.

Está no ar um novo sistema-mundo

PE: Giorgio Agamben fez referência[2] àquela famosa intuição de Foucault em Les Mots et les Choses,[3] de que a humanidade pode desaparecer como figura desenhada na areia apagada pelas ondas que chegam à praia. A imagem muito clara pode aplicar-se à nossa atual condição mutante, à beira de entrar numa era transumana ou mesmo pós-humana, dominada pela Inteligência Artificial e pela engenharia genética.

Agamben argumenta que a Covid-19, o aquecimento global e, mais radicalmente, o acesso digital direto a nossa vida psíquica – todos esses elementos estão destruindo a humanidade. É possível que a Grande Mutação instale paradigma diferente – e nos guie para longe da pós-humanidade?

VG: O rápido desenvolvimento na tecnologia será algo seriamente complexo com o que teremos de lidar. Será sensacional em vários sentidos, mas nem todos muito bonitos, apresentando desafios inegáveis, alguns dos quais já estão aí e a ponto de se tornarem mais intensos.

Quais os efeitos da tecnologia e da inteligência artificial em ambos, em nosso corpo orgânico e em nosso corpo subjetivo? Controle da mente, com instrumentos bidirecionais, ambos recolhendo informação e induzindo comandos num trabalho em andamento.

Níveis perversos de controle tecnológico sobre a sociedade são preocupação, uma vez que Plutão, também chamado Hades, senhor dos infernos, também transitará pelo futurista e tecnológico Aquário de 2023/24 em diante, até 2043/44 – tempos de intensa transformação social, quando avanços tecnológicos nos encherão a cabeça, e todas as concepções de ciência mudarão consideravelmente, mas com sérios riscos de loucura transumana e pós-humana.

Não podemos desconsiderar nossa organicidade. Tampouco podemos desconsiderar nossa subjetividade. Plutão tem a ver com transformação ou dominação – em outras palavras, citando recente artigo seu: “Eis o nosso futuro: ou hackers ou escravos.”

Temos de embarcar no hacking, não só no sentido objetivo – porque essa é uma competência cada vez mais desejável –, mas também no sentido subjetivo, encontrando linhas de voo e mantendo Eros vivo, mantendo viva em nós a força vital.

Considerando que já estamos quase lá, vivendo tempos distópicos, bem podemos dar o melhor uso possível a essa aventura inegavelmente épica. Em vez de sucumbir ao medo e ao isolamento, derrotados pela desgraça e pela escuridão, lembremos o que diz Wallerstein sobre destino versus livre arbítrio: os dois existem. – É linda ideia, vale dizer, fortemente confirmada em minha experiência como astróloga que observa ciclos coletivos e individuais.

Durante o período de estabilidade de um sistema-mundo, é vida normal, quando a estrutura do sistema-mundo funciona bem, mesmo que haja algumas flutuações; é muito difícil mudar coisas no sistema, o sistema tende à estabilização. É destino: você aplica grande esforço tentando escapar do destino, para quase sempre só conseguir pequena mudança.

Mas quando o sistema-mundo entrou em fase final, não é mais possível resgatá-lo e há muita instabilidade. A crise persiste, e a única possibilidade é mudar, para um ou para outro lado: é a hora do livre arbítrio. Wallerstein diz que na crise estrutural temos mais livre arbítrio, nossas ações têm impacto mais forte, e qualquer pequeno movimento conta para decidir a direção que a mudança do sistema tomará.

Na vida pessoal de cada um de nós, nesse ponto temporal de virada, como Foucault questiona, também podemos perguntar a nós mesmos: Como humanos, somos obstáculo ou obstrução? Somos um modo de aprisionamento da vida – ou somos uma abertura, uma linha de voo?

Quanto às palavras de Foucault que você e Agamben trazem à luz, permita-me citar o parágrafo anterior, exatamente antes desse trecho final em Les Mots et les Choses, quando Foucault diz que “tomando-se uma amostra cronológica relativamente curta, em área geográfica restrita – a cultura europeia desde o século 16 –, pode-se ter certeza de que o homem, aí, é invenção recente.”

O “homem” ao qual se refere como efeito de uma mudança nos arranjos fundamentais do conhecimento há poucos séculos, com os arranjos mais novos talvez já acabando, está dentro das referências europeias. Não é nem o começo nem o fim do homem, nem é sua única expressão interessante. Com vasta, profunda apreciação por tanto da cultura europeia, talvez uma das coisas que se aproxima de um fim necessário seja o Eurocentrismo.

Seja como for, claro, é profundamente preocupante o modo como rostos estão sendo simultaneamente rastreados digitalmente por máquinas, e escondidos dos demais seres humanos por trás de máscaras – sobretudo efeitos disso sobre crianças. A atual transição não é isenta de efeitos epistemológicos e de efeitos sobre o modo como concebemos o homem, os humanos. Mas nem tudo está dito e feito.

Para resistir contra a objetificação dos humanos, pode ser oportuno aprender sobre a concepção de seres humanos dos Tupis: tu + pi, “som sentado”. Ser humano é um som que tomou assento, tomou lugar e vibra. Temos de manter vibrantes nossos corpos, rostos e palavras. Para os tupis nativos da América do Sul, cada ser humano é uma nova música, uma nova palavra vibrante que coproduz vida com outros humanos e com a natureza.



Índio Tupi. Albert Eckhout, 1643 (In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020).

Parece que as raízes mais profundas da sabedoria aborígene-indígena ainda esperam por reconhecimento pleno; que aquela sabedoria seja reintegrada nas Américas, antes de o ocidente reinventar o mundo.

Agora, os ventos sopram do Oriente, da Eurásia, inspirando novas formas de coexistência. Mas os controladores do capital, da riqueza e do poder mundano nada cederão sem luta – ou pelo menos sem umas poucas guerras e pesada carga de controle social mediante tecnologia que capture corpos e mentes. O que será –Grande Reset ou Grande Mutação?

Há saída para esse dilema? Sim. E parece caminhar ao longo das Novas Rotas da Seda e da Integração da Eurásia – literalmente em certa considerável medida, mas também simbolicamente. O Ocidente pode ganhar muito se se abrir para os ventos orientais, as notícias e as ideias que vêm de lá, histórias de uma comunidade de futuro partilhado para a humanidade. Está no ar um novo sistema-mundo.

NTs

* Epígrafe acrescentada pelos tradutores.

[1] Link acrescentado pelos tradutores.

[2] Em port. O tempo que resta: Um comentário à Carta aos Romanos (2000. Lisboa: Autêntica Editora, Trad. Davi Pessoa, Cláudio Oliveira, 2017) Também em Estante Virtual.

[3] 1ª ed.: 1966, Gallimard; port. As Palavras e as Coisas, São Paulo: Martins Fontes, trad. Salma Tannus Muchail, PDF.

 





Courtesy of Tlaxcala
Source: https://asiatimes.com/2020/12/behold-the-dawning-of-the-age-of-aquarius/
Publication date of original article: 21/12/2020
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=30347

 

Tags: Era de Aquário Astrologia e estratégiaNovo sistema mundial Conjunção Júpiter-Saturno Renascença Distópica Grande MutaçãoNovas Rotas da SedaVanessa Guazzelli
 

 
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