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 21/10/2020 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
English  
 CULTURE & COMMUNICATION 
CULTURE & COMMUNICATION / Confúcio casará com Marx? Os limites do poder chinês, analizados por Lanxin Xiang
Date of publication at Tlaxcala: 11/10/2020
Original: Will Confucius marry Marx? The limits of Chinese power, as seen by a Chinese expert
Listening to and reading Lanxin Xiang

Translations available: Français 

Confúcio casará com Marx? Os limites do poder chinês, analizados por Lanxin Xiang

Pepe Escobar Пепе Эскобар پپه اِسکوبار

Translated by  Coletivo de tradutores Vila Mandinga

 

Tudo sobre as relações Estados Unidos-China depende do resultado das próximas eleições presidenciais dos EUA.

Um governo Trump 2.0 basicamente turbinaria a aposta já feita no primeiro mandato, de dissociação total, com o objetivo de espremer a China “maligna” num múltiplo front de Guerra Híbrida, minar o superávit comercial chinês e cooptar grandes áreas da Ásia, sempre caracterizando a China como o mal encarnado.

A equipe Biden, mesmo sem professar qualquer desejo de cair na armadilha de uma nova Guerra Fria, a julgar pela plataforma oficial do Partido Democrata, seria apenas um pouco menos confrontacional – ostensivamente “salvando” a “ordem baseada em regras”, e mantendo as sanções que Trump promulgou.

Raros analistas chineses estão mais bem posicionados para examinar o tabuleiro de xadrez geopolítico e geoeconômico do que Lanxin Xiang, especialista em relações entre China, EUA e Europa, professor de História e Relações Internacionais no Instituto de Graduação de Estudos Internacionais e de Desenvolvimento (IHEID) em Genebra e diretor do Centro de Estudos para Um Cinturão, Uma Estrada, em Xangai.

Xiang recebeu seu PhD da Escola de Estudos Internacionais Avançados (SAIS) Johns Hopkins em Washington, DC, e é tão respeitado nos Estados Unidos quanto na China. Durante recente webinar [assiste-se na página da Fundação Fernando Henrique Cardoso], ele expôs os traços e as linhas essenciais de uma análise que o Ocidente por sua conta e risco tem escolhido ignorar.

Xiang tem-se concentrado no impulso da administração Trump de “redefinir um alvo externo”: um processo que, na avaliação do pensador chinês, é “arriscado, perigoso e altamente ideológico”. Não por causa de Trump – que “não está interessado em questões ideológicas” – mas devido ao fato de que a “política da China foi sequestrada por guerreiros da Guerra Fria real”. O objetivo: “operar a mudança de regime. Mas esse não era o plano original de Trump”.

Xiang detona a lógica por trás desses ‘Guerreiros Frios’: “Cometemos um grande erro nos últimos 40 anos”, ele insiste. “É absurdo ler ao contrário toda a História das relações EUA-China desde Nixon”. E Xiang teme a “falta de estratégia geral”. Cria-se assim enorme incerteza estratégica – que leva a erros de cálculo”.

Complicando o problema, “a China não está realmente certa do que os EUA querem fazer”. Porque vai muito além da contenção – que Xiang define como “pensamento de estratégia muito bem concebido por George Kennan, pai da Guerra Fria”. Xiang detecta apenas um padrão de “civilização ocidental versus cultura não-caucasiana. É linguagem muito perigosa. É reedição direta de Samuel Huntington, e mostra muito pouco espaço para concessões”.

Em resumo, eis o “American way de tropeçar numa Guerra Fria”.

Surpresa de Outubro?

Tudo que se lê acima conecta-se diretamente com a grande preocupação de Xiang com alguma possível Surpresa de Outubro: “Poderia, provavelmente, ter a ver com Taiwan. Ou algum envolvimento limitado no Mar do Sul da China”. E salienta: “Os militares chineses estão terrivelmente preocupados. Não é impensável alguma Surpresa de Outubro com confronto militar, porque Trump pode querer restabelecer uma presidência de guerra”.

Para Xiang, “se Biden vencer, o perigo de alguma Guerra Fria virar Guerra Quente será drasticamente reduzido”. Biden está muito consciente das mudanças no consenso bipartidário em Washington: “Historicamente, os Republicanos não se importam com direitos humanos e ideologia. Os chineses sempre preferiram lidar com os Republicanos. Não conseguem lidar com os Democratas – direitos humanos, questões de valores. Agora, a situação está invertida”.

Xiang, aliás, “convidou um alto conselheiro de Biden, a visitar Pequim. Muito pragmático. Não muito ideológico”. Mas no caso de um possível governo Trump 2.0, tudo poderia mudar: “Meu palpite é que o presidente estará totalmente relaxado, podendo mesmo fazer a política para a China dar volta de 180 graus. Não me surpreenderia. O presidente dos EUA voltaria a ser o melhor amigo de Xi Jinping”.

Na situação atual, o problema é “um diplomata chefe que se comporta como propagandista chefe, tirando vantagem de um presidente errático”.

Por isso Xiang nunca descarta sequer que tropas chinesas invadam Taiwan. Imagina um cenário em que algum governo de Taiwan anuncie “Somos independentes”, combinando o anúncio e uma visita do Secretário de Estado: “Isso provocaria ação militar limitada, e poderia transformar-se em escalada. Pense em Sarajevo. Aí está algo que me preocupa. Se Taiwan declarar a independência, os chineses invadirão em menos de 24 horas.”

Como Pequim erra o cálculo

Ao contrário da maioria dos estudiosos chineses, Xiang é refrescantemente franco sobre as próprias deficiências de Pequim: “Várias coisas deveriam ter sido mais bem controladas. Como o movimento de abandonar o conselho original de Deng Xiaoping, de que a China deveria esperar sua hora e manter perfil discreto”. Deng, no último testamento, estabeleceu uma linha do tempo para chegar lá, de pelo menos 50 anos”.

O problema é que “a velocidade do desenvolvimento econômico da China levou a cálculos precipitados e prematuros”. E a uma estratégia que não foi bem pensada. A diplomacia do “Guerreiro Lobo” [filme chinês, 2015] é postura – e linguagem –extremamente assertiva. A China começou a perturbar os EUA – e até europeus: foi erro de cálculo geoestratégico”.

E isso nos leva ao que Xiang caracteriza como “a superdistensão do poder chinês: geopolítico e geoeconômico”. O especialista chinês gosta de citar Paul Kennedy: “Qualquer grande superpotência, se superdistendida, torna-se vulnerável”.

Xiang afirma até que a Iniciativa Cinturão e Estrada, ICE (ing. BRI) – cujo conceito ele elogia entusiasticamente – pode estar superdistendida: “Pensaram que se tratasse de projeto puramente econômico. Mas com alcance global tão amplo?”.

Assim sendo, a ICE seria caso de superdistensão, ou fonte de desestabilização? Xiang observa o modo como “os chineses nunca estão realmente interessados nas políticas internas de outros países”. Não estão interessados em exportar um modelo”. Os chineses não têm verdadeiro modelo. Modelo tem de ser maduro – tem de ter estrutura. A menos que se fale de exportar a cultura tradicional chinesa”.

O problema, mais uma vez, é que a China pensou que seria possível “esgueirar-se para áreas geográficas às quais os EUA nunca deram muita atenção, África, Ásia Central, sem necessariamente provocar um revés geopolítico. Mas é ingenuidade”.

Xiang gosta de lembrar aos analistas ocidentais que, “o modelo de investimento em infraestrutura foi inventado pelos europeus. Ferrovias. A Transiberiana. Canais, como no Panamá. Por trás desses projetos, sempre houve competição colonial. Nós perseguimos projetos similares – menos o colonialismo”.

Ainda assim, “os planejadores chineses enterraram a cabeça na areia”. Nunca usam essa palavra – geopolítica”. Daí as piadas sobre os estrategistas das políticas chinesas: “Você pode não gostar da geopolítica, mas a geopolítica gosta de você”.

Pergunte a Confúcio

O aspecto crucial da “situação pós-pandemia”, segundo Xiang, é esquecer “aquela coisa de guerreiro lobo”. A China pode conseguir reiniciar a economia antes de todos. Desenvolver vacina realmente eficaz. A China não deve politizá-la. Deve mostrar a vacina como valor universal; deve perseguir o multilateralismo para ajudar o mundo; e melhorar sua imagem”.

Em política interna, Xiang é muito claro: “durante a última década, a atmosfera em casa, em questões de minorias, liberdade de expressão, tem-se apertado a ponto de não ajudar a imagem da China como potência global”.

Compare isso e, por exemplo, as “visões desfavoráveis da China”, em pesquisa sobre nações do Ocidente industrializado que só inclui dois países asiáticos: Japão e Coréia do Sul.

E assim chegamos ao livro de Xiang The Quest for Legitimacy in Chinese Politics –, pode-se dizer o estudo contemporâneo mais importante, de especialista chinês, para explicar a fissura Oriente-Ocidente e superá-la.

É livro que traz avanço tão grande, que suas principais análises conceituais serão objeto de uma coluna de acompanhamento.

A tese principal de Xiang é que “a legitimidade, na filosofia política de tradição chinesa, é questão dinâmica”. Transplantar valores políticos ocidentais para o sistema chinês não funciona”.

No entanto – e como o conceito chinês de legitimidade é dinâmico, – Xiang salienta que “o governo chinês está enfrentando uma crise de legitimidade”. Refere-se à campanha anticorrupção dos últimos quatro anos: “A corrupção oficial generalizada, que é efeito colateral do desenvolvimento econômico, traz à tona o lado ruim do sistema”. É mérito de Xi Jinping ter compreendido que, se permitirmos que continue, o PCC perderá toda a legitimidade”.

Xiang chama a atenção para a evidência de que, na China, “a legitimidade baseia-se no conceito de moralidade – desde Confúcio. Os comunistas não podem escapar dessa lógica.

Ninguém antes de Xi atreveu-se a combater a corrupção. E o presidente chinês teve a coragem de erradicá-la, prendeu centenas de generais corruptos. Alguns até tentaram dois ou três golpes de Estado”.

Ao mesmo tempo, Xiang é inflexivelmente contra “estreitar a atmosfera” na China em termos de liberdade de expressão. Menciona o exemplo de Cingapura sob Lee Kuan Yew, um “sistema autoritário iluminado”. O problema é que “a China não tem Estado de direito. Embora haja muitos aspectos legais. Cingapura é uma pequena cidade-estado. Como Hong Kong. Há pouco tempo, assumiram o sistema jurídico britânico. Para aquelas dimensões, está funcionando muito bem”.

O que leva Xiang a Aristóteles, que ele cita: “A democracia jamais funciona em países maiores. Funciona, sim, em cidades-estado”. E, armados com Aristóteles, entramos em Hong Kong: “Hong Kong tinha um Estado de direito – mas nunca teve democracia. O governo foi nomeado diretamente por Londres. Foi assim que Hong Kong realmente funcionou – como um dínamo econômico. Os economistas neoliberais consideram Hong Kong um modelo. Trata-se de um arranjo político único. A política dos magnatas. Sem democracia – mesmo que o governo colonial não tenha governado como figura autoritária. A economia de mercado reinou desenfreada. Hong Kong era governada pelo Jockey Club, HSBC, Jardine Matheson, com o governo colonial como coordenador. Ninguém que, algum dia, tenha-se preocupado com as pessoas do fundo do poço”.

Xiang observa como “o homem mais rico de Hong Kong paga apenas 15% de imposto de renda”. A China quis manter esse padrão, com governo colonial nomeado por Pequim. Dar andamento à política dos magnatas. Mas agora há uma nova geração. Pessoas nascidas após a entrega – que nada sabem da história colonial. A elite chinesa que governa desde 1997 não prestou atenção à base e negligenciou o sentimento da geração mais jovem. Durante um ano inteiro, os chineses nada fizeram. A lei e a ordem entraram em colapso. Por isso os chineses do continente decidiram intervir. Trata-se disso, na nova lei de segurança”.

E o que dizer daquele outro ator “maligno” favorito de Washington – a Rússia? “Putin adoraria uma vitória de Trump”. Os chineses também, até há três meses. A Guerra Fria foi um grande triângulo estratégico. Depois que Nixon foi para a China, os EUA sentaram-se no meio do campo, manipulando Moscou e Pequim. Agora tudo mudou”.

Confúcio casará com Marx? 

Lanxin Xiang, acadêmico chinês especialista em China, escreveu um livro, The Quest for Legitimacy in Chinese Politics [A busca da legitimidade na política da China], que é, em minha opinião, o mais extraordinário esforço, em décadas, para reduzir a distância político-histórica que divide Ocidente e Oriente.

É impossível numa coluna curta fazer justiça à relevância das discussões que esse livro inspira. Destacaremos aqui algumas das questões principais, esperando que atraiam os leitores informados, – especialmente os dentro da Beltway [rodovia circular de Washington], agora convulsionados por vários graus de sinofobia.

Xiang ataca direto a contradição fundamental: a China é amplamente acusada pelo Ocidente de falta de legitimidade democrática, exatamente porque desfruta de boom econômico sustentável de quatro décadas, que fez história.

E identifica duas fontes principais do problema chinês: “Por um lado, há o projeto de restauração cultural por meio do qual Xi Jinping tenta restaurar a ‘legitimidade confuciana’ – o tradicional Mandato do Céu. Por outro lado, Xi recusa-se a iniciar qualquer reforma política, porque é sua prioridade preservar o sistema político existente, ou seja, um sistema de governo derivado principalmente de uma fonte estrangeira, a Rússia bolchevique.”

Aí está a questão: "Os dois objetivos são totalmente incompatíveis".

Xiang argumenta que para a maioria dos chineses – o aparelho e a população em geral – esse "sistema alienígena" não pode ser preservado para sempre, especialmente agora que um renascimento cultural está focado no Sonho Chinês.

É desnecessário acrescentar que a intelectualidade ocidental não entende a trama – por causa da insistência em interpretar a China sob as hipóteses da ciência política ocidental e da "historiografia eurocêntrica". O que Xiang tenta em seu livro é "navegar cuidadosamente pelas armadilhas conceituais e lógicas criadas pelas terminologias do pós-iluminismo".

Assim, sua ênfase na desconstrução de "palavras-chave mestras" – conceito maravilhoso diretamente da ideografia. As quatro palavras-chave mestras são legitimidade, república, economia e política externa. Esse volume dedica-se à legitimidade (hefa, em chinês).

Quando a lei é sobre a moralidade

É uma alegria seguir o modo como Xiang desmistifica Max Weber – "o pensador original da questão da legitimidade política". Weber é criticado por seu "estudo bastante perfunctório do sistema confuciana"; insistiu em que o confucionismo – que só enfatizaria igualdade, harmonia, decência, virtude e pacifismo – não poderia desenvolver um espírito capitalista competitivo.

Xiang mostra como, desde o início da tradição greco-romana, a política sempre foi sobre uma concepção espacial – como refletida na polis (uma cidade ou cidade-estado). O conceito confuciana de política, por outro lado, é "inteiramente temporal, baseado na ideia dinâmica de que a legitimidade é determinada pelo comportamento moral cotidiano de um governante".

Xiang mostra como o hefa contém, de fato, dois conceitos: "ajuste" e "lei" – com "lei" dando prioridade à moralidade.

Na China, a legitimidade de um governante é derivada de um Mandato do Céu (Tian Ming). Governantes não justos perdem inevitavelmente o mandato – e o direito de governar. Isto, argumenta Xiang, é "argumento dinâmico ‘baseado em atos’, diferente de ser ‘baseado em procedimentos’".

Essencialmente, o Mandato do Céu é "uma antiga crença chinesa de que tian [“céu”, mas não o céu cristão, completado com um Deus onisciente] concede ao imperador o direito de governar com base em sua qualidade moral e capacidade de governar bem e justamente".

A beleza disso é que o mandato não requer conexão divina ou linha de sangue nobre, e não tem limite de tempo. Os estudiosos chineses sempre interpretaram o mandato como uma forma de combater o abuso de poder.

O ponto crucial geral é que, ao contrário do Ocidente, a visão chinesa da história é cíclica, não linear: "A legitimidade é na verdade um processo interminável de autoajuste moral".

Xiang então a compara esse modo de entender a legitimidade, e o modo como o ocidente compreende o conceito. Refere-se a Locke, para quem a legitimidade política deriva do consentimento popular explícito e implícito dos governados. A diferença é que, sem religião institucionalizada, como no Cristianismo, os chineses criaram "uma concepção dinâmica de legitimidade mediante a autoridade secular da vontade geral da população, chegando a essa ideia sem a ajuda de qualquer teoria política fictícia como direitos divinos que a humanidade teria, e ‘contrato social’".

Xiang não pode deixar de nos lembrar que Leibniz descreveu esse saber como "teologia natal chinesa", que não conflitava com os princípios básicos do cristianismo.

Xiang também explica como o Mandato do Céu nada tem a ver com Império: "A aquisição de territórios ultramarinos para o reassentamento populacional nunca ocorreu na história chinesa, e pouco faz para aumentar a legitimidade do governante".

No final, foi o Iluminismo, principalmente por causa de Montesquieu, que começou a descartar o Mandato do Céu, como "nada além de desculpas pelo ‘Despotismo Oriental’". Xiang observa como "as ricas interações da Europa pré-moderna com o mundo não ocidental" foram "deliberadamente ignoradas pelos historiadores pós-iluministas".

O que nos leva a uma ironia amarga: "Enquanto a ‘legitimidade democrática’ moderna como conceito só pode funcionar com o ato de deslegitimar outros tipos de sistema político, o Mandato dos Céus nunca contém qualquer elemento de desacreditação de outros modelos de governança".  É o fim do “fim da história”.

Por que não há Revolução Industrial?

Xiang faz uma pergunta fundamental: "O sucesso da China deve mais ao sistema econômico mundial liderado pelo Ocidente, ou aos próprios recursos culturais chineses?"

E então passa a desmontar meticulosamente o mito de que o crescimento econômico só seria possível sob a democracia liberal ocidental – uma herança, mais uma vez, do Iluminismo, que determinou que o confucionismo não estaria à altura da tarefa.

Já tínhamos uma pista de que esse não podia ser o caso, com a ascensão dos tigres do leste asiático – Singapura, Hong Kong, Taiwan e Coréia do Sul – nas décadas de 1980 e 1990. Houve até um grupo de cientistas sociais e historiadores que admitiu a possibilidade de o confucionismo ser um estímulo ao crescimento econômico.

Mas concentraram-se só na superfície, os alegados valores confucianos "núcleo”, de trabalho duro e parcimônia, argumenta Xiang: "O verdadeiro valor "núcleo", a visão confuciana do estado e suas relações com a economia, é frequentemente negligenciada".

Praticamente todos no Ocidente, com exceção de alguns estudiosos não eurocêntricos, ignoram completamente que a China foi a superpotência econômica dominante do mundo, do século 12 até a segunda década do século 19.

Xiang nos lembra que uma economia de mercado – incluindo propriedade privada, transações livres de terras e mão-de-obra móvel altamente especializada – foi estabelecida na China já em 300 a.C. Além disso, "já na dinastia Ming, a China havia adquirido todos os principais elementos essenciais para a Revolução Industrial Britânica no século 18".

O que nos leva a um enigma histórico persistente: por que a Revolução Industrial não começou na China?

Xiang vira a questão de cabeça para baixo: "Por que a China tradicional precisaria de revolução industrial"?

Mais uma vez, Xiang nos lembra que "o modelo econômico chinês foi muito influente durante o período inicial do Iluminismo". O pensamento econômico confuciano foi introduzido pelos jesuítas na Europa, e algumas ideias chinesas, como o princípio do laisser-faire, levaram à filosofia do livre comércio".

Xiang mostra não apenas como as relações econômicas externas não eram importantes para a política e economia chinesas, mas também que "a visão tradicional chinesa do Estado contradiz a lógica básica da revolução industrial, pois seu método de produção em massa visa a conquistar não apenas o mercado interno, mas também territórios externos".

Xiang também mostra como o fundamento ideológico de A Riqueza das Nações de Adam Smith começou a se desviar para o liberalismo individualista, enquanto "Confúcio nunca se desviou de uma posição contra o individualismo, pois o papel da economia é ‘enriquecer muitos’ como um todo, não indivíduos específicos".

Tudo isso leva ao fato de que "na economia moderna, a conversa genuína entre Ocidente e China quase não existe desde o início, já que o Ocidente pós-iluminismo tem estado absolutamente confiante sobre ser o único possuidor da ‘verdade universal’ e do segredo do desenvolvimento econômico, que alegadamente teria sido negada ao resto do mundo".

Uma pista extra pode ser encontrada quando vemos o que significa ‘economia’ (jingji) na China: Jingji é "um termo abreviado de dois caracteres que não descreve atividades puramente econômicas ou mesmo comerciais". Significa simplesmente "administrar a vida cotidiana da sociedade e fornecer recursos suficientes para o Estado". Nessa concepção, política e economia nunca podem ser separadas em duas esferas mecânicas. O corpo político e o corpo econômico estão organicamente ligados".

E é por isso que o comércio exterior, mesmo quando a China era muito ativa na Antiga Rota da Seda, "nunca foi considerado capaz de desempenhar papel fundamental para a saúde da economia em geral e para o bem-estar do povo".

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Antiga caligrafia chinesa do conceito taoísta de Wu Wei (Não-Ação) escrita dentro de uma sala do trono na cidade proibida de Pequim, China

Wu Wei e a mão invisível

Xiang precisa voltar ao básico: o Ocidente não inventou o mercado livre. O princípio do laisser-faire foi concebido primeiramente por François Quesnay, o precursor da "mão invisível" de Adam Smith. Curiosamente, Quesnay era conhecido na época, como o "Confúcio Europeu".

Em Le Despotisme de la Chine [O despotismo da China] (1767), escrito nove anos antes de A Riqueza das Nações, Quesnay mostra-se francamente a favor do conceito meritocrático de dar poder político aos estudiosos e elogiava o sistema imperial chinês "iluminado".

Uma ironia histórica extra deliciosa é que o laisser-faire, como nos lembra Xiang, foi diretamente inspirado pelo conceito taoísta do wu wei – que se pode traduzir aproximadamente como "não ação".

Xiang observa como "Adam Smith, profundamente influenciado por Quesnay, que ele encontrara em Paris para aprender a filosofia do laisser-faire, pode ter compreendido corretamente o significado de wu wei, que transpareceria em sua invenção, de uma ‘mão invisível’, sugerindo um sistema econômico proativo, ao invés de passivo, e mantendo de lado a dimensão teológica cristã.”

Xiang revê todos, de Locke e Montesquieu até Stuart Mill, a teoria do "sistema mundial" de Hegel e o “sistema mundo” de Wallerstein, para chegar a uma conclusão surpreendente: "A concepção da China como típico modelo econômico ‘retrógrado’ foi invenção do século 20 construída sobre a imaginação da superioridade cultural e racial ocidental, não sobre a realidade histórica".

A ideia de ‘retrógrado’ sobretudo, não foi estabelecida na Europa até a revolução francesa: "Antes disso, o conceito de ‘revolução’ sempre manteve a dimensão cíclica, ao invés de perspectiva histórica ‘progressiva’, quer dizer, linear. O significado original de revolução (do latim revolutio, uma "volta") não contém nenhum elemento de progresso social, pois se refere a uma mudança fundamental no poder político ou nas estruturas organizacionais que ocorre quando a população levanta-se contra as autoridades do momento".

Confúcio casará com Marx?

E isso nos leva à China pós-moderna. Xiang enfatiza que é consenso popular na China que o Partido Comunista "não é marxista nem capitalista, e seu padrão moral tem pouco a ver com o sistema de valores confucianos". Consequentemente, o Mandato do Céu é "seriamente ofendido".

O problema é que "casar marxismo e confucionismo é muito perigoso".

Xiang identifica a falha fundamental da distribuição da riqueza chinesa "em um sistema que garante um processo estrutural de transferência injusta (e ilegal) de riqueza, das pessoas que contribuem com mão-de-obra para a produção de riqueza para as pessoas que não contribuem".

Argumenta que, "o desvio dos valores tradicionais confucianos explica melhor as raízes do problema da distribuição de renda na China, do que as teorias weberianas que tentaram estabelecer uma ligação clara entre democracia e distribuição justa de renda".  

Então, o que deve ser feito?

Xiang é extremamente crítico contra o modo como o Ocidente abordou a China no século 19, "seguindo o caminho da política de poder de Vestefália e da demonstração de violência e superioridade militar ocidental".

Bem, todos nós sabemos como isso saiu pela culatra. Foi o que levou a uma verdadeira revolução moderna - e ao maoísmo. O problema, como Xiang o interpreta, é que a revolução "transformou a tradicional sociedade confuciana de paz e harmonia, num virulento estado vestefaliano".

Assim, só mediante uma revolução social inspirada em outubro de 1917, o estado chinês "iniciou o verdadeiro processo de aproximação com o Ocidente" e o que todos nós definimos como "modernização". O que diria Deng?

Xiang argumenta que o atual sistema híbrido chinês, "dominado por um órgão alienígena canceroso, do bolchevismo russo, não é sustentável sem reformas drásticas para criar um sistema republicano pluralista". No entanto, estas reformas não devem ser condicionadas à eliminação dos valores políticos tradicionais".

Então, será o PCC capaz de fundir com sucesso o confucionismo e o marxismo-leninismo? Forjar uma Terceira Via, única, chinesa? Esse não é só o tema principal dos livros posteriores de Xiang: essa é questão ainda para muito tempo.

 

 

 

 

Lanxin Xiang

The Quest for Legitimacy in Chinese Politics
A New Interpretation

Routledge Studies on Asia in the World

Routledge, Sept. 2019
ISBN 9780367339715
166 Pages

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Courtesy of Tlaxcala
Source: https://asiatimes.com/author/pepe-escobar/
Publication date of original article: 08/10/2020
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=29801

 

Tags: ChinaLanxin XiangPolítica chinesa
 

 
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