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 21/10/2020 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
English  
 UNIVERSAL ISSUES 
UNIVERSAL ISSUES / “Tempo de Distúrbios”* na Transcaucásia (1-3)
Date of publication at Tlaxcala: 05/10/2020
Original: The Time of Troubles in Transcaucasia (1-3)

“Tempo de Distúrbios”* na Transcaucásia (1-3)

MK Bhadrakumar

Translated by  Coletivo de tradutores Vila Mandinga

 

Três dias depois do início do conflito no Alto Carabaque[1] [ing. Nagorno-Karabakh], na região da Transcaucásia – também conhecida como Sul do Cáucaso – está-se tornando claro que a narrativa binária divulgada por comentaristas ocidentais de que se trataria de conflito turco-russo de vontades e estratégias é simplesmente ingênua, ou propositalmente enganosa.

Trilha na Transcaucásia: terras antigas e novas fronteiras no grande jogo

A questão é que Rússia e Turquia – e Irã num papel de apoio – já falam proativamente de negociações envolvendo os lados em conflito.

30 de setembro foi uma espécie de reviravolta. Na véspera, Teerã pedira ao Azerbaijão e à Armênia que resolvessem pacificamente suas diferenças pacificamente e ofereceu-se para, com Turquia e Rússia, ajudar os dois países a resolverem suas diferenças.

O presidente Hassan Rouhani repetiu esta oferta em conversa por telefone com o primeiro-ministro armênio Nikol Pashinyan. De acordo com o relato iraniano, Pashinyan respondeu positivamente que “qualquer tensão e conflito aconteceria em detrimento de todos os países da região; e acolheu qualquer iniciativa prática para parar a violência.”

A Armênia é país sem litoral e depende do Irã para lhe fornecer uma rota de transporte vital para o mundo exterior. Por seu lado, Teerã manteve relação calorosa com a Armênia (embora o rival Azerbaijão seja país muçulmano), fornecendo-lhe inclusive gás natural.

Teerã manteve-se na trilha amistosa, mesmo após a “revolução colorida” na Armênia em 2018 e a ininterrupta gravitação Pashinyan para o campo dos EUA no período subsequente, ao mesmo tempo em que permanecia membro da Organização do Tratado de Segurança Coletiva liderada por Moscou. (Ver meus artigos no Asia TimesA color revolution in the Caucasus puts Russia in a dilemma, de 9/5/2018 e Color Revolution in the Caucasus rattles Russian leaders, de 8/8/2018).

O Irã enfrenta profundas preocupações de segurança com as recentes trocas diplomáticas de Pashinyan com Israel (por iniciativa da Casa Branca), o que, claro, trouxe o famoso aparelho de inteligência israelense Mossad direto para as fronteiras do norte do Irã (além da potencial presença do Mossad nos Emirados Árabes, Bahrein e Omã no flanco sul do Irã).

A Turquia também tem motivos para se preocupar com as atividades de Israel na Transcaucásia. Israel está virtualmente ‘pegando carona’ nas revoluções coloridas patrocinadas pelos EUA na Transcaucásia. Depois da revolução colorida patrocinada pelos EUA na Geórgia em 2003, Israel apareceu, da noite para o dia, em Tbilisi. E os laços Israel-Geórgia tornaram-se logo muito estreitos.

Apesar do fracasso da revolução colorida no Azerbaijão em meados de 2005 e das tentativas esporádicas desde então, Israel desenvolveu estreita “cooperação de segurança” com aquele país. Mais ao norte, Israel desenvolveu relações especiais com a Ucrânia, também progênie da revolução colorida, que também tem presidente judeu étnico e ativamente envolvido também na revolução colorida em andamento na Bielorrússia. (O estranho é que, apesar da empresa virulentamente antirrussa que Israel mantém na região do Mar Negro, ela ainda mantenha laços excepcionalmente próximos com a Rússia!)

Tanto a Turquia quanto o Irã entendem perfeitamente bem por que Israel atribui tamanha importância aos três pequenos países da Transcaucásia (população total de 11 milhões), para estabelecer presença de segurança naquela região com o objetivo de criar uma “segunda frente” contra dois inimigos regionais – Ancara e Teerã. (Israel também tem um histórico de ligações com grupos separatistas curdos que têm ligações étnicas com a Transcaucásia.)

O Irã expressou abertamente sua inquietação sobre a decisão de Pashinyan de abrir a embaixada da Armênia em Israel, o que por sua vez inspirou o então Conselheiro de Segurança Nacional (B0lton) a viajar até Erevã, onde abertamente atacou o Irã (e a Rússia). A propósito, a Diáspora Armênia nos EUA é eleitorado influente que Pashinyan também não pode ignorar.

De qualquer forma, pouco depois eclodiram as manifestações em frente à embaixada da Armênia em Teerã, e altos funcionários iranianos advertiram Pashinyan. Comentarista iraniano escreveu: “As considerações de Teerã (…) devem ser levadas em consideração (…) Por outro lado, a Rússia sem dúvida opõe-se à ideia de usar a Armênia para promover a segurança e a influência econômica. Os russos já haviam criticado severamente o acordo de armas de Israel com a Geórgia e a República do Azerbaijão”.

Claramente, analistas ocidentais estão cuidando de não deixar ver o nexo EUA-Israel, em funcionamento na Transcaucásia.

Tanto Ancara como Teerã têm motivos para se preocupar com a possibilidade de os EUA usarem israelenses, por procuração, na região da Transcaucásia – como tem acontecido há décadas, no Oriente Médio, – para enfraquecer e reverter as aspirações crescentes das duas potências regionais.

Em formação o eixo Turquia-Irã

Com a destruição do Iraque e da Síria e o enfraquecimento do Egito, a Turquia (sob o presidente Erdogan) e o Irã são as duas únicas potências regionais autênticas no Oriente Médio muçulmano que podem  desafiar as estratégias regionais dos EUA e enfrentar a preeminência militar de Israel.

Significativamente, o aumento do nexo EUA-Israel na Transcaucásia vem na esteira dos recentes “acordos de paz” patrocinados pelos EUA entre Israel e três estados do Golfo Árabe (Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Omã). De fato, tanto Turquia como Irã reagiram fortemente àquele desenvolvimento no Golfo.

Nesta semana, o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas Iranianas, Major General Mohammad Hossein Baqeri, alertou explicitamente os Emirados Árabes Unidos de que Teerã verá aquele país como “inimigo” e agirá de acordo, se Abu Dhabi permitir qualquer presença de segurança israelense em seu solo.

Um mês depois do acordo Israel-Emirados Árabes Unidos, o presidente turco Recep Erdogan apareceu numa videoconferência com Rouhani, na qual fez declaração altissonante, ne abertura: “O diálogo entre Turquia e Irã tem papel decisivo na solução de muitos problemas regionais. Acredito que nossa cooperação retornará aos níveis anteriores à medida que as condições pandêmicas forem amenizadas”.

Rouhani respondeu que as relações turco-iranianas são construídas sobre bases sólidas ao longo da história, e as fronteiras entre os dois “países amigos e irmãos” sempre foram “as fronteiras da paz e da amizade”. Afirmou que, especialmente nos últimos sete anos, ambos os governos têm feito grandes esforços com base na cooperação bilateral, regional e internacional.

De forma significativa, Rouhani acrescentou que os dois países estão localizados numa “região sensível” do Oriente Médio e são “as duas grandes potências da região. Houve hostilidade e vingança em relação a ambos os países. Também existe hoje. Não há maneira de ser bem-sucedido contra essas conspirações a não ser reforçando relações amigáveis entre os dois países.”

Com certeza, Israel tomou nota do nascente eixo Turquia-Irã (que também inclui o Catar). Comentário no Jerusalem Post observou que nos últimos anos os laços turco-iranianos “ficaram mais próximos devido à oposição conjunta aos EUA e também a Israel. Irã e Turquia apoiam o Hamas, por exemplo”. O autor observou com ironia que a geopolítica do Oriente Médio construída em torno da luta sectária xiita-sunita pode ter sobrevivido à sua utilidade!

Mais uma vez, a agência de notícias estatal turca Anadolu publicou comentário na semana passada intitulado Novo desenho estratégico do Oriente Médio, em que apontou que os acordos de paz no Golfo trazem à tona o cisma entre os Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Bahrein por um lado, e Qatar e Kuwait por outro. (O Catar é aliado da Turquia, e o Kuwait tem laços amigáveis com o Irã.) Ali se lia:

“Os países árabes parecem ter perdido a confiança e o senso de unidade; quando o senso de confiança está seriamente danificado, é mais fácil pô-los em conflito, e essa divisão regional, como em toda parte, torna os países árabes e seus líderes dependentes de forças externas para a própria segurança e a própria existência”.

O comentário de Anadolu fez o aquecimento para o tema principal, a saber, que o chamado acordo de “normalização” entre Emirados Árabes Unidos e Israel “pode ser esforço velado não apenas para expandir o espaço imperial, mas também para formar um bloco contra Irã e Turquia no Oriente Médio.”

“O Irã é país não árabe e parece arqui-inimigo dos EUA e de Israel; o Irã colabora com a Rússia e a China, arquirrivais dos Estados Unidos, e às vezes com a Turquia, o que pode ameaçar tanto o interesse imperial dos EUA como a segurança de Israel na região. Portanto, o poder regional e a influência do Irã devem ser afastados e encurralados.”

“A Turquia é país da OTAN e parece aliado próximo dos EUA, (mas) a política dos EUA em relação à Turquia na região é ambivalente, obscura e elusiva no sentido de que os EUA ainda continuam a apoiar o grupo terrorista YPG / PKK (curdo) na Síria, que há décadas comete atos terroristas contra a Turquia e mata civis”

“Além disso, EUA e Israel, embora pareçam amigáveis, não querem Turquia forte, porque Turquia forte pode influenciar os países árabes, particularmente usando o Islã e, em seguida, virá-los contra a exploração do Oriente Médio e de seu petróleo e recursos pelas potências neoimperiais, mas os EUA e outras potências imperiais nunca permitirão que a Turquia ponha-se facilmente de pé na região. Podem preferir uma Turquia fraca e frágil, lutando com seus conflitos internos, que sempre sirva aos propósitos do Império.”

Nas crônicas do grande jogo, raramente acontece de os protagonistas manifestarem-se e optarem pela diplomacia pública. O jogo, historicamente, é jogado em silêncio, nas sombras, fora do campo de visão do público. Turquia e Irã decidiram de outra modo.

Parece crível que o conflito na Transcaucásia – região longínqua que faz fronteira com Turquia e Irã, onde Israel está consolidando uma presença de segurança contra eles – tenha eclodido por simples coincidência nesse cenário de novo alinhamento, que promete redesenhar a geopolítica do Oriente Médio?

NTs

* Orig. Time of Troubles [Smutnoie vremia]. Expressão faz referência um período da história da Rússia, de crise política, que se seguiu à queda da dinastia Rurik (1598) e terminou com o estabelecimento da dinastia Romanov (1613).

2

 

Paz! ou cessar-fogo pelo menos, charge de Rainer Hachfeld

A chanceler alemã, Angela Merkel, disse em Berlim, dia 2 de outubro, que a União Europeia busca “diálogo construtivo e agenda positiva” com a Turquia. Tinha acabado de retornar à capital alemã, depois de reunião de cúpula de dois dias, dos países da UE, em Bruxelas. A Alemanha desempenhou papel fundamental na cúpula, ao desviar o relacionamento UE-Turquia de um caminho de confronto para o qual se vinha encaminhando. (Veja em meu blog (ing.), EU marks distance from Indo-Pacific strategy, [UE marca distância da estratégia Indo-Pacífico].)

Merkel disse: “Tivemos discussão muito longa e detalhada sobre nossas relações com a Turquia. Concluímos que gostaríamos de entrar num diálogo construtivo com a Turquia, queremos uma agenda positiva”. E acrescentou que a cúpula de Bruxelas abrira uma “janela de oportunidade” para cooperação mais estreita com Ancara.

Merkel divulgou que as negociações para alcançar cooperação mais estreita entre UE e Turquia nos próximos meses concentrar-se-ão em questões de migração, comércio, modernização da união aduaneira e regime de vistos liberalizado. Com efeito, Merkel defendeu o presidente turco Recep Erdogan em momento particularmente delicado para ele, quando há críticas crescentes na Europa às suas políticas regionais.

Em particular, um incidente desagradável envolveu recentemente as marinhas turca e francesa no Mediterrâneo Oriental. Foi incidente raro, talvez sem precedentes nas sete décadas de história da aliança ocidental, envolvendo duas potências da OTAN.

Mais uma vez, os EUA recentemente fortaleceram suas bases militares na Grécia e repetidamente pediram à Turquia moderação em suas disputas marítimas com a Grécia; e prometeram intervir política e militarmente nas tensões no Mediterrâneo Oriental.

Turquia e França apoiam lados opostos na guerra civil na Líbia, e os EUA estão alinhados com grupos militantes curdos na Síria – considerados terroristas pela Turquia. E quando o conflito eclodiu no Alto Carabaque[1] [ing. Nagorno Kharabach], a Turquia viu EUA, França e Rússia rapidamente se aproximando em formação, para repelir o forte apoio de Erdogan ao Azerbaijão, incluindo promessas de ajuda militar.

De fato, Merkel muito deliberadamente. Antes de partir para Bruxelas, Merkel dirigiu-se ao Parlamento alemão, onde se referiu a queixas contra os registros de agressão a direitos humanos pela Turquia; mas elogiou o desempenho “incrível e notável” da Turquia no acolhimento de refugiados, destacando que a Turquia está hospedando quatro milhões de refugiados.

Curiosamente, Merkel comparou, embora de longe, Grécia e Turquia. “Temos de pesar muito cuidadosamente o modo como resolver as tensões e como fortalecer nossa cooperação em assuntos de refugiados e tratamento humano aos refugiados” – disse ela. E passou a condenar o modo como a Grécia, arqui-inimiga da Turquia, está administrando o campo de migrantes em Lesvos (Grécia).

Com sarcasmo mordaz, Merkel observou, “nos últimos dias, vimos imagens horríveis do tratamento dado a refugiados. E não da Turquia, gostaria de enfatizar, mas de Lesvos (Grécia), de estado membro da UE.”

Sem dúvida, a Alemanha levantou-se como amiga da Turquia, em momento em que o governo turco enfrenta crescente isolamento dentro da OTAN e da UE.



A batalha desesperada do Desfiladeiro Xipca, na Guerra Russo-Turca de 1877-1878 entre o Império Otomano e a coalizão Ortodoxa Oriental liderada pelo Império Russo, travada nos Bálcãs e no Cáucaso. Os turcos foram derrotados e empurrados de volta para os portões de Constantinopla.

Eventos seminais

Em As Grandes Potências São Definidas por Suas Guerras, o conhecido professor americano da Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade de Harvard, Stephen Walt, destaca que explicar a política externa de uma grande potência é questão perene para os estudiosos de política internacional; e que as grandes guerras têm efeitos poderosos e duradouros na subsequente política externa ou militar de todas as nação.

O Prof. Walt explicou que as guerras são eventos seminais dos quais decorre o comportamento subsequente das grandes nações, independentemente de seu poder relativo, tipo de regime ou liderança. Para Walt, “Aqueles que lutam nessas guerras geralmente ficam marcados pela experiência, e as lições tiradas da vitória ou derrota ficarão gravadas profundamente na memória coletiva da nação. A experiência de guerras passadas é central para a maioria das identidades nacionais (...) Se se quiser entender a política externa de uma grande potência, portanto (e provavelmente de potências menores também), bom lugar para começar é examinar são as grandes guerras que ela tenha travado.”

Memória histórica cara a Berlim, sem dúvida, que os otomanos tenham sido aliados da Alemanha em duas guerras mundiais, quando o país estava irremediavelmente isolado pelas potências ocidentais.

Por outro lado, vejam Rússia e Turquia. A Rússia travou uma série de doze guerras contra o Império Otomano, entre os séculos 17 e 20 – uma das mais longas séries de conflitos militares da história europeia –, que acabou desastrosamente para os Otomanos, e levou-os ao declínio e eventual desintegração.

A Rússia frequentemente lutou contra os otomanos em épocas diferentes, muitas vezes em aliança com outras potências europeias. É importante ressaltar que essas guerras ajudaram a mostrar a ascensão da Rússia como uma potência europeia após os esforços de modernização de Pedro, o Grande, no início do século XVIII.

Na psique muçulmana turca, no entanto, a Rússia figurou como protagonista que desempenhou papel histórico no enfraquecimento do Império Otomano na Europa Central, nos Bálcãs e na Transcaucásia.

A conquista russa do Cáucaso ocorreu principalmente entre 1800 e 1864. Naquela época, o Império Russo expandiu-se para controlar a região entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, território que hoje é a Armênia, o Azerbaijão e a Geórgia (e partes do atual Irã e Turquia), bem como a região do Norte do Cáucaso da Rússia moderna. Várias guerras foram travadas contra os governantes locais das regiões, bem como contra o Império Otomano, até que as últimas regiões foram postas sob o controle russo em 1864, com a expulsão para a Turquia de várias centenas de milhares de circassianos.

Seguiu-se então a Guerra Russo-Turca (1877-78), quando a Rússia tomou a província de Kars e o porto de Batumi no Mar Negro. Na Primeira Guerra Mundial, alinhados com a Alemanha, os otomanos empurraram a Rússia até Baku (capital do Azerbaijão), mas depois se retiraram, sem forças para avançar mais. Subsequentemente, na confusão do pós-guerra, de alguma forma conseguiram reconquistar Kars.

Basta dizer que, em 1991, após o colapso da União Soviética, quando a Transcaucásia tornou-se independente, como estados da Geórgia, Armênia e Azerbaijão, muita história sangrenta envolvendo a Rússia e a Turquia serviu de pano de fundo.

A família de Erdogan, por exemplo, veio originalmente da província de Rize na parte oriental da região do Mar Negro da Turquia (onde o presidente foi criado), que foi um local de batalhas entre os exércitos otomano e russo durante a Campanha do Cáucaso na 1ª Guerra Mundial e foi ocupada por forças russas em 1916-1918, para finalmente ser devolvida aos otomanos, sob o Tratado de Brest-Litovsk em 1918. A União Soviética devolveu Rize à Turquia em 1921.

‘O passado nunca está morto’

Em meio a tudo isso, uma característica interessante do fluxo da história é que, desde os dias do Império Romano, a Transcaucásia serviu de fronteira entre Constantinopla (Istambul) e a Pérsia. As áreas mudariam de um império para outro, seus governantes teriam vários graus de independência e muitas vezes foram vassalos de um ou de outro império, dependendo do tamanho e da proximidade do exército do suserano. Por volta de 1750, a área foi dividida entre os vassalos turcos e persas. Os dois terços ocidentais eram habitados por georgianos, antigo povo cristão, e o terço oriental principalmente por azeris, muçulmanos turcos. E a Rússia, é claro, estava avançando perto do mar Negro e do Cáspio contra os impérios otomano e persa.

Naquele ensaio, o professor Walt citou frase famosa do romancista americano William Faulkner: “O passado nunca está morto. Sequer passou.” De fato, para Rússia, Turquia ou Irã, os atuais desenvolvimentos na Transcaucásia fazem parte de um vasto evento coletivo que molda suas percepções de perigo e definições de heroísmo, sacrifício e até mesmo sua identidade.

Na verdade, a formação atual na situação em desenvolvimento em torno da Turquia fala por si: Alemanha expressa simpatia pela Turquia e oferece parceria aprimorada; França critica e pede sanções da UE contra a Turquia; França denuncia o envio de combatentes sírios de Ancara para Alto Carabaque; Alemanha elogia a ação da Turquia no enfrentamento da crise de refugiados que atinge a Europa; França coordena com a Rússia no mais alto nível de liderança para pressionar a Turquia sobre o Alto Carabaque; OTAN e EUA juntam-se ao apelo de Rússia e França pelo fim dos combates na Transcaucásia; Irã mantém a neutralidade e sugere esforço conjunto com Turquia e Rússia, para resolver o conflito entre Armênia e Azerbaijão.

Enquanto isso, Moscou superou a ambivalência inicial e está entrando na arena ao lado da Armênia, expressando “séria preocupação em relação às informações recebidas sobre o envolvimento em hostilidades ,de homens armados de unidades armadas ilegais do Oriente Médio” – em palavras simples, censurando o apoio da Turquia ao Azerbaijão. E o presidente Vladimir Putin ressalta que manifesta posição comum com “os presidentes dos países que co-presidem o Grupo de Minsk da OSCE” (Rússia, França e Estados Unidos). Simplificando, a “rivalidade competitiva” da Rússia com a Turquia só cresce.

Curiosamente, o presidente turco Recep Erdogan chamou abertamente a atenção para o contexto regional e geopolítico mais amplo no qual várias potências não identificadas estão manobrando e coordenam-se secretamente para cercar a Turquia. Erdogan disse dia 2 de outubro: “Se conectarmos as crises no Cáucaso, na Síria e no Mediterrâneo, vê-se que está em curso uma tentativa de cercar a Turquia”.

Não é preciso muita engenhosidade para descobrir a identidade das potências estrangeiras que Erdogan tinha em mente, e que estariam tentando “cercar” a Turquia – França, Estados Unidos e Grécia (todas potências da OTAN) e Rússia, o flagelo do Império Otomano. [Continua]

 NTs

[1] Colegas da Tlaxcala ensinam, sobre Nagorno Karabakh: Nagorno deriva do russo nagorny=montanhoso (nesse sentido, também, (território) “alto”, “de altitude”; Lenayin em armênio; e Dağlıq Qarabağ em azeri); e Karabagh significa literalmente “jardim preto” (kara = preto, em turco, e bagh = jardim, em persa).
 No Brasil, não encontramos NENHUM estudo linguístico prestável nesse campo. Seguimos então nessa tradução a toponímia definida para o português de Portugal, a qual acompanha, nas grandes linhas, a lição de Tlaxcala. Nagorno-Karabakh é traduzido ao português de Portugal como “Alto Carabaque” (CORREIA, Paulo, Outono de 2008). “Geografia do Cáucaso”, pág. 10-13 (PDF). Sítio web da Direcção-Geral da Tradução da Comissão Europeia no portal da União Europeia. A Folha — Boletim da língua portuguesa nas instituições europeias (n.º 28): 11-13. ISSN 1830-7809. Consultado em 1/10/2020.





Courtesy of Tlaxcala
Source: https://indianpunchline.com/2020/10/
Publication date of original article: 01/10/2020
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=29760

 

Tags: Alto CarabaqueArmênia-AzerbaijãoRússia-Turquia-IrãTranscaucásia
 

 
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