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 30/11/2020 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
English  
 UNIVERSAL ISSUES 
UNIVERSAL ISSUES / Raízes mais profundas do demonizamento* da China
Date of publication at Tlaxcala: 05/05/2020
Original: The deeper roots of Chinese demonization
Translations available: Français  Español 

Raízes mais profundas do demonizamento* da China

Pepe Escobar Пепе Эскобар پپه اِسکوبار

Translated by  Coletivo de tradutores Vila Mandinga

 

“Assim, o seguinte trajeto se delineia: o mundo oriental, no qual apenas um sabe e se reconhece como livre; o mundo antigo, no qual a consciência de liberdade amplia­se, e alguns homens são livres; e finalmente, o mundo germânico, em que a liberdade se universaliza. Nesse sentido, nota Hegel, a história universal (ou seja, aquela dos povos que formaram um aparato estatal e uma tradição historiográfica escrita) “vai do leste para o oeste, pois a Europa é o fim da história universal, e a Ásia é o começo”. O oriente é, portanto, “a infância da história

(HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Filosofia da História. 2ª ed. Trad. Maria Rodrigues e Harden. Brasília: Editora da UnB, 1999, p. 93-94, apud SANTOS, Vinicius in Aufklaerung, vol. 3 n.2 , out. 2016, p. 150 [NTs]).

Apertem os cintos: a guerra híbrida dos EUA contra a China  está a um passo de entrar em correria frenética, com relatórios econômicos  já identificando a pandemia Covid-19 como ponto de virada em que o século asiático – de fato, eurasiano – realmente começou.

A estratégia dos EUA permanece, essencialmente, a dominação de pleno espectro, com a Estratégia de Segurança Nacional obcecada pelas três principais “ameaças” que viriam de China, Rússia e Irã. A China, por sua vez, propõe uma “comunidade de destino partilhado” para a humanidade, falando, sobretudo, ao Sul Global.

A narrativa norte-americana predominante na guerra de informação em curso está já gravada em pedra: Covid-19 foi o resultado de um vazamento de um laboratório chinês de guerra biológica. China é culpada. China mentiu. E China tem de pagar.

A tática neonormal de ininterrupto demonizamento da China não é aplicada só pelos rudes servidores do complexo industrial-militar-de-vigilância-mídia. É preciso cavar muito mais fundo para descobrir como essas atitudes estão profundamente inseridas no pensamento ocidental – e depois migraram para os EUA “fim da história”. (Aqui se encontra um excelente estudo, Unfabling the East: The Enlightenment’s Encounter with Asia [‘Desnarrando’** o Oriente: O encontro do Iluminismo com a Ásia, de Jurgen Osterhammel).

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Só brancos civilizados

Bem depois do Renascimento, nos séculos 17 e 18, sempre que a Europa referia-se à Ásia tratava, essencialmente da religião como fator que condicionava o comércio. O Cristianismo reinava supremo, e era portanto impossível pensar se se excluía Deus. 

Ao mesmo tempo, os doutores da Igreja estavam profundamente perturbados pela evidência de que no mundo achinesado funcionasse uma sociedade muito bem organizada, na ausência de uma religião transcendente. Isso os incomodava até mais que os tais “selvagens” descobertos nas Américas.

Ao começar a explorar o que era visto como “Extremo Oriente”, a Europa estava envolvida em guerras de religião. Mas ao mesmo tempo era forçada a confrontar outra explicação do mundo, e isso alimentava algumas tendências antirreligiosas subversivas em toda a esfera do Iluminismo.

Foi nesse estágio que europeus letrados começaram a questionar a filosofia chinesa, que inevitavelmente tiveram de degradar até o status de mera “sabedoria” mundana, porque escapava dos cânones do pensamento grego e agostiniano. A mesma atitude, por falar nisso, persiste e reina ainda hoje.

Temos então o que na França foi descrito como chinoiseries — uma espécie de admiração ambígua, na qual a China era vista como supremo exemplo de sociedade pagã.

Mas a Igreja começou a perder a paciência com a fascinação dos jesuítas com a China. A Sorbonne foi punida. Uma bula papal, em 1725, tornou ilegais os cristãos que praticavam ritos chineses. É interessante observar que filósofos e jesuítas sinófilos condenados pelo Papa insistiam que a “fé real” (o cristianismo) estava “prefigurada” em textos chineses antigos, especificamente em textos confucionistas.

A visão europeia do “Extremo Oriente” foi conceptualizada por um poderoso trio alemão: Kant, Herder e Schlegel. Kant, vale anotar, também era geógrafo; e Herder, historiador e geógrafo. Pode-se dizer que o trio foi precursor do Orientalismo Ocidental. É fácil imaginar um conto de Borges que reúna esses três.

Por mais que soubessem de China, Índia e Japão, para Kant e Herder Deus estava acima de todos. Deus planejara o desenvolvimento do mundo nos mínimos detalhes. E isso nos leva à suspeita questão da raça.

Quebrando o monopólio da religião, referências a raça representaram virada epistemológica real em relação a pensadores anteriores. Leibniz e Voltaire, por exemplo, eram sinófilos. Montesquieu e Diderot, sinófobos. Nenhum explicou diferenças culturais pela raça. Montesquieu desenvolveu uma teoria baseada no clima. Mas não tinha conotação racial – era mais uma abordagem étnica.

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A grande separação veio mediante o filósofo e viajante francês François Bernier (1620-1688), que viajou durante 13 anos pela Ásia e, em 1671 publicou um livro intitulado La Description des Etats du Grand Mogol, de l’Indoustan, du Royaume de Cachemire, etc. [Descrição dos Estados do Grão Mogol, do Industão, do Reino da Caxemira, etc.] Voltaire, deu-lhe o apelido hilário de Bernier-Mogol — quando virou celebridade, contando seus contos ao rei e à corte. Em livro posterior, Nouvelle Division de la Terre par les Differentes Especes ou Races d’Homme qui l’Habitent [Nova Divisão da Terra pelas Diferentes Espécies ou Raças de Homem que a Habitam] publicado em 1684, o “Mogol” distinguia até cinco raças humanas. 

Tudo aqui se baseava na cor da pelo, não em famílias ou no clima. Os europeus foram mecanicamente postos no topo, e outras raças eram consideradas “feias”. Depois, a divisão da humanidade em até cinco raças foi retomada por David Hume — sempre baseado na cor da pele. Hume proclamou ao mundo anglo-saxão que só brancos eram civilizados; todos os demais eram inferiores. Essa atitude ainda é difundida. Vejam, por exemplo, essa patética diatribe publicada recentemente na Grã-Bretanha.

Duas Ásias

David Mungello, em The Great Encounter of China and the West, 1500-1800 [O Grande Encontro de China e Ocidente, 1500-1800] diz que o primeiro pensador que realmente apareceu com uma teoria da raça amarela foi Kant, em seus escritos entre 1775 e 1785. Kant declara a “raça branca”, “superior”; a “raça negra”, “inferior” (e Kant não condena a escravidão); a “raça acobreada” [ing. “copper race”] é declarada “fraca” e a “raça amarela” é intermediária. As diferenças entre elas devem-se a um processo histórico que começou com a “raça branca” considerada a mais pura e original; as demais, todas bastardas.

Kant subdividiu a Ásia por países. Para ele, Leste da Ásia significava Tibete, China e Japão. Considerou a China em termos relativamente positivo, como mix de raças branca e amarela.

Herder foi definitivamente menos contundente. Para ele, o berço da civilização ocidental foi a Mesopotâmia, e o Jardim do Éden era na Caxemira “o paraíso do mundo”. Sua teoria da evolução história foi sucesso retumbante no Ocidente: o Oriente era um bebê: o Egito, um menino ainda pequeno; a Grécia, jovem. O Leste da Ásia de Herder consistia de Tibet, China, Cochinchina, Tonkin, Laos, Coreia, Tartaristão Ocidental e Japão — países e regiões tocados pela civilização chinesa. 

Schlegel foi como que o precursor de um hippie californiano dos anos 60s. Entusiasta do sânscrito e estudante sério de culturas ocidentais. Disse que “no Oriente devemos buscar o mais elevado romantismo.” Índia foi fonte de tudo, “toda a história do espírito humano.” Não surpreende que esse insight tenha-se tornado o mantra de toda uma geração de orientalistas. Foi também o início de uma visão dualista da Ásia em todo o Ocidente, que ainda hoje predomina.

Assim, no século 18, já tínhamos plenamente estabelecida uma visão de Ásia como terra de servidão e berço do despotismo e paternalismo, em agudo contraste com uma visão da Ásia como berço de civilizações. A ambiguidade passou a ser o novo normal. A Ásia era respeitada como mãe de civilizações – inclusive de sistemas de valores — e mãe, até, do Ocidente. Paralelamente, a Ásia era ofendida, aviltada, desprezada ou ignorada, porque jamais alcançara o alto nível do Ocidente, apesar de ter começado à frente.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/ab/Boulanger%2C_Thiry_d%27Holbach_-_Recherches_sur_l%27origine_du_despotisme_oriental%2C_Seyffert%2C_1762.png

 Investigação sobre as origens do Despotismo Oriental, do barão d'Holbach, 1792

Aqueles déspotas orientais

E com isso chegamos ao Grande dos Grandes: Hegel. Hiper bem informado – leu relatórios de ex-jesuítas enviados de Pequim –, Hegel não escreve sobre o “Extremo Oriente”, mas só sobre o Oriente, o qual inclui o Leste da Ásia, essencialmente o mundo chinês. Hegel não dá muita importância a religião, como fizeram seus predecessores. Fala sobre o Oriente de um ponto de vista do estado e da política. Em contraste com Schlegel, interessado em mitos, Hegel vê o Oriente como um estado de natureza no processo de avançar em direção a um começo da história – diferente da África negra a qual, para ele, rastejaria num pântano de um estado bestial.

Para explicar a bifurcação histórica entre um mundo estagnado e outro mundo em movimento, levando ao ideal do ocidente, Hegel dividiu a Ásia em duas.

Uma parte era constituída de China e Mongólia: um mundo pueril, de inocência patriarcal, onde não se desenvolvem contradições, onde a sobrevivência de grandes impérios é como que prova daquele caráter “não substancial”, imóvel e anistórico.

A outra parte era Vorderasien (“Ásia Anterior”), unindo o atual Oriente Médio e a Ásia Central, do Egito à Pérsia. Esse é mundo já histórico.

Essas duas vastas regiões são subdivididas. Assim, no final, o Asiatische Welt (mundo asiático) de Hegel é dividido em quatro: primeiro, as planícies dos rios Amarelo e Azul; e os planaltos, China e Mongólia; segundo, os vales do Ganges e do Indus; terceiro, as planícies do Oxus (hoje, Amur-Darya) e as Jaxartes (hoje, Syr-Darya), os planaltos da Pérsia, os vales do Tigre e do Eufrates; e quarto, o vale do Nilo.

É fascinante ver como na Filosofia da História (1822-1830) Hegel termina por separar a Índia, como uma espécie de intermediária na evolução histórica. Assim, temos, no fim, como Jean-Marc Moura mostrou em L’(Extreme) Orient selon G. W. F. Hegel, Philosophie de l’Histoire et Imaginaire Exotique [O (Extremo) Oriente segundo GWF Hegel, Filosofia da História e Imaginário Exótico] um “Oriente fragmentado, do qual a Índia é exemplo, e um Oriente imóvel, bloqueado como quimera, do qual o Extremo Oriente é a ilustração.”

Para descrever a relação entre Leste e Oeste, Hegel usa algumas metáforas. Uma delas, bastante famosa, imita a rota do Sol: “A história vai do leste para o oeste, pois a Europa é o fim da história universal, e a Ásia é o começo”. Todos sabemos até onde nos levaram os vulgares disseminadores do “fim da história”.

A outra metáfora é de Herder: o Oriente é a “juventude da história” – mas com a China em lugar especial, por causa da importância dos princípios do confucionismo que sistematicamente privilegiam o papel da família.

Nada do que acima se alinhavou é neutro, claro, em termos de compreender a Ásia. A dupla metáfora – que usa o sol e a maturidade – teria de confortar o narcisismo do ocidente, depois herdado da Europa pelos EUA, os “excepcionais”. Implicada nessa visão está o inevitável complexo de superioridade, no caso dos EUA ainda mais agudo, porque legitimado pelo curso da história.

Hegel pensava que a história deve ser avaliada no quadro do desenvolvimento da liberdade. Ora, China e Índia sendo anistóricas, a liberdade não poderia existir, a menos que trazida de fora.

E eis como o famoso “despotismo oriental” evocado por Montesquieu, e a sempre possível e às vezes inevitável e sempre valiosa intervenção ocidental são, tomados em conjunto, totalmente legitimados. Que ninguém espere que esse quadro mental mude em breve, se é que algum dia mudará. Sobretudo agora, com a China já tão próxima de voltar como número um.

http://tlaxcala-int.org/upload/gal_20765.jpg

NTs

* Vale anotar, antes q alguém ‘corrija’, que há diferença (importante nesse contexto) entre “demonização” (processo pelo qual algo/alguém é efetivamente transformado em demônio) e “demonizamento” (palavra dicionarizada, que designa o processo pelo qual se tenta a demonização). Claramente se trata, aqui, de demonizamento, dado que, por mais que tentem e desejem, EUA não conseguiram ainda transformar a China em demônio efetivo. 

** A palavra em alemão é “Entzauberung”, comumente traduzida ao inglês por disenchantment (port. aprox. “o processo de des-encantar algo ‘encantado’”; nesse sentido, “desencantamento”). A opção por “unfabling” na tradução ao inglês é trabalho do próprio autor, que revisou a tradução. Essa opção pelo neologismo em inglês está explicada à pág. 30 do livro citado. Tentamos manter alguma coisa da neologia na tradução ao português, nesse “desnarrando”, neologia aqui adotada.

 

 





Courtesy of Tlaxcala
Source: https://asiatimes.com/2020/05/the-deeper-roots-of-chinese-demonization/
Publication date of original article: 02/05/2020
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=28871

 

Tags: Demonizamento da ChinaSinofobia
 

 
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