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 09/08/2020 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
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 CULTURE & COMMUNICATION 
CULTURE & COMMUNICATION / Neo-estalinismo: o que realmente Losurdo propõe
Date of publication at Tlaxcala: 04/01/2020
Translations available: Français 

Neo-estalinismo: o que realmente Losurdo propõe

Mário Maestri

 

O estalinismo foi exacerbação do assalto da burocracia ao poder político na URSS, após 1917, quando do refluxo da revolução europeia.  Ele se corporificou em inícios de 1930, consolidando-se quando do “Grande Terror” [1934-38], dando lugar, em 1953, com a morte de Stálin, à ditadura burocrática soft da Era Kruschev [1953-64]. O estalinismo e o pós-estalinismo assentavam raízes no parasitismo burocrático da URSS e das nações de economia nacionalizada e planificada. Eles vicejaram nos partidos comunistas satélites àquelas nações. Com a restauração capitalista de inícios dos anos 1990, dissolveu-se a base social dos estalinismos hard e soft, reduzidos a excrescências ideológicas de saudosistas. Espécies de hienas de papel.

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Domenico Losurdo (1941-2018)

O neo-estalinismo é fenômeno político-ideológico novo. Ele discute o passado para avançar proposta para o presente. Versão delas se apresentam em “Stalin: História crítica de uma lenda negra” de Domenico Losurdo, de 2008. Esse trabalho não propõe retorno a uma organização “socialista” semelhante à URSS dos anos 1929-1953. Nisso, Losurdo diverge do maoísta Ludo Martens, no seu trabalho “Un autre regard sur Staline”, de 1994. Porém, é habitual aproximar-se abusivamente os dois trabalhos. A proposta política de Losurdo está mais detalhada em “O marxismo ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer”, de 2017.

Os fins justificam os meios

Domenico Losurdo embaralha, inventa e confunde fatos, amálgama fenômenos históricos e cronologias, avança por saltos lógicos.  Faz das tripas coração para propor que o estalinismo e o “Grande Terror” nasceram da necessidade da defesa da Rússia soviética dos ´ataques terroristas´ sobretudo dos trotskistas, que dificultavam que a URSS se preparasse contra as ameaças de “re-escravização” nazista. A vitória da “Terceira Guerra Civil” [sic] soviética, lançada desde o interior do Partido Bolchevique, teria sido dirigida heroicamente por Stálin.  Para ajustar os fatos à sua teoria, Losurdo ajusta a cronologia dos fatos. 

A primeira execução de um bolchevique, Yakov Blumkin, um herói lendário da Guerra Civil [1917-22], totalmente à margem da lei, foi em 1929. A ditadura estalinista propriamente dita começa em 1931, em plena República de Weimar [1919-33]. O “Grande Terror”, parte em 1934, quando Hitler apenas chegava ao poder, cinco anos antes do pacto germano-soviético, em agosto de 1939, e sete, da invasão nazista da URSS, de agosto de 1941. Ofensiva nazista que Stálin literalmente “prepara”, eliminando, em 1937, quinze mil oficiais soviéticos, entre eles, 714 generais, duas vezes e meia mais que os nazistas! Que gritaram, satisfeitos: “Stálin matou foi pouco”.

As mistificações de Losurdo ignoram o estalinismo como fenômeno da luta de classes e social na URSS e no mundo. Mais ainda. Para ele, a própria revolução de 1917 perde seu caráter de classe, proletário e camponês, pois teria sido suscitada sobretudo pelo horror despertado pela I Guerra Mundial - ele oblitera totalmente a Revolução de 1905! Para o italiano, no frigir dos ovos, não se tratava de construir sociedade socialista, superar a exploração, combater a exploração e os “privilégios” sociais. 

Para Losurdo, o desafio era transformar o “país no mais rico” do mundo, nas palavras do “Pai dos Povos”. Fazer a Rússia alcançar o nível de desenvolvimento das grandes nações, através de industrialização e coletivização, que J. Stálin combateu até 1929, de braços com Bukharin [1888-1938]. Tudo para defendê-la da agressão das grandes nações. Nessa corrida “desenvolvimentista”, Stálin fora obrigado a reprimir as “utopias” “messiânicas” e “universalistas” do “marxismo ocidental”, de Marx,  Engels, Lenin, Rosa, defendidas então por Trotsky e tantos outros bolcheviques de primeira hora.

 Caunas, Lituânia

Chega de utopia!

Losurdo saúda Stálin por “corrigir” Marx e Engels, reduzindo os “universalismos” utópicos, ao defender e restringir a revolução ao nível do desenvolvimento econômico das nações singulares, no caso a URSS, por além das contradições sociais, que deviam ser secundarizadas diante da tarefa magna. Festeja a defesa de Stalin do voto universal e secreto e o direito dos padres ortodoxos de votarem e serem eleitos. Celebra o despotismo na produção e ataca a democracia operária.  A “Guerra Patriótica” contra o nazismo, lembra, foi “patriótica” e não foi soviética. O que importava para a Rússia, então soviética, e certamente depois de soviética, era o desenvolvimento das forças produtivas, para manter sua autonomia nacional.  

E, para a defesa nacional, era imprescindível um homem forte, o ditador providencial, que impusesse a “ditadura desenvolvimentista” - ao ler lembrei-me de Geisel e Putin! Tese que Losurdo, já despudorado, busca na visão de Hegel [1770-1831] do Estado como síntese final do Espírito, e cadinho da superação contradições sociais. Estado que, através da ordem prussiana, emancipou-unificou a nação alemã, sob a direção de ´líder providencial´ - Otto von Bismarck [1815-1898]. Literalmente, Losurdo sugere que o “Pai dos Povos”, não se excedeu, foi quase tímido e parece repetir, com os alemães, “Stálin matou foi pouco”.

 Segundo o italiano,  “Marxismo Ocidental” teria entrado em crise ao perder a visão  da prioridade da construção de Estados nacionais poderosos, inebriado pelos utopismos do internacionalismo e da centralidade operária e da questão social. Propostas “universalistas” abstratas, sem conteúdos, como a defesa de Federação das Repúblicas Socialistas da Europa, proposta que parte de  Marx e Engels como objetivação das tendências de superação da própria ordem capitalista nacional, e é abraçada por Lênin, Rosa, Trotsky e o bolchevismo. A verdade perdida se encontraria no “marxismo oriental”, despreocupado por essas questiúnculas e interessado na construção de suas nações, sem qualquer priorização da solução das contradições sociais.

Losurdo no Brasil

Mas Losurdo não escreve para o Oriente e tem sucesso sobretudo na grande nação deste lado do Atlântico. O que não põe qualquer dificuldade. Aqui, entre tupiniquins e tupinambás, diante dos ataques imperialistas, devemos seguir as lições do mestre. A qualquer custo, devemos recuperar a “centralidade” da luta pela independência nacional, pelo desenvolvimento das forças produtivas materiais. E, para tal, é necessário relegar as reivindicações do mundo do trabalho, diante das ´necessidades maiores da nação´.  Já que o imperialismo é o inimigo principal. Logicamente, nessa equação, cabem as propostas das mais amplas alianças políticas e sociais contra  Bolsonaro e o fascismo, em ´defesa da nação´, contra o fascismo e o imperialismo, que rodam por aí.  

Simplificando, nessa viagem ao futuro, voltamos ao passado, aos tempos do imediato pós-guerra, do PCB, sob as ordens do estalinismo, exigindo que o trabalhador “apertasse o cinto”, pois o lucro do patrão e mais capitalismo seriam suas maiores vitórias. Ou à era em que o gordo Delfim propunha ao magro trabalhador a necessidade de “fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo”. Ou seja, construir a nação brasileira com os burgueses “patriotas” interessados em fazer os trabalhadores trabalharem duro, tudo pelo bem do Brasil. A China-hoje-grande-potência, com jornadas de trabalho de doze horas, seis dias por semanas, sem férias, e centenas de despóticos mega bilionários [como Jack Ma, de 51 anos], saindo pelo ladrão, é a grande referência de Domenico Losurdo.

“Você pode inventar flores, cabras, touros, até homens e mulheres - mas não pode inventar o nosso Stalin. Porque, para Stalin, a invenção - mesmo que Picasso seja o inventor - é necessariamente inferior à realidade. Incompleta, e, portanto, infiel”: autocrítica do escritor Louis Aragon após a publicação deste retrato de Stalin por Picasso, publicado pela revista Les Lettres françaises após a morte de Stalin em 1953.

É simploriedade difundida explicar o avanço do neo-estalinismo no Brasil como devido à crise subjetiva e objetiva das organizações marxistas-revolucionárias. Ainda que, muitas delas, negando o golpe de 2016, abraçadas ao Moro e à Lava Jato, apoiando os ataques do imperialismo à Venezuela, à Líbia, à Síria, etc., realmente assustam. Pessoalmente, encontro-me mais próximo do PCB [anti-estalinista] do que dessas organizações que ninguém sabe por que insistem em se reivindicarem trotskistas. E jamais abri a mão de sequer uma proposta programática de León Trotsky, que abracei há cinquenta e dois anos, com destaque para sua batalha final pela defesa incondicional da URSS - “Em defesa do marxismo”. 

Desde 1961, nenhuma vitória socialista se consolidou no mundo. Em 1976, iniciou-se a restauração capitalista na China. A partir dos anos 1990, ruiu a imensa maioria dos Estados de economia planificada, na maior crise jamais vivida pela humanidade. Vivemos hoje em Era Contrarrevolucionária. Lutamos contra um capitalismo em estágio senil, que chafurda na barbárie. O sucesso galopante de um Domenico Losurdo no Brasil deve-se sobretudo ao dramático retrocesso da centralidade política e ideológica dos trabalhadores, através do mundo, com destaque para nosso país. O neo-stalinismo constitui ataque de viés burguês -e não burocrático- ao coração das ideias de Marx, Engels, Lenin, Rosa, Trotsky, para citar os mais cintilantes pensadores do mundo do trabalho. Com ele, as tropas inimigas invadem e se instalam no interior de nossas hoje frágeis trincheiras.

Máscara de Carnaval, França 1938, Museu de Arte e História, La Rochelle

 

 





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Publication date of original article: 04/01/2020
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Tags: EstalinismoNeo-estalinismoDomenico LosurdoMarxismo
 

 
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