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 10/12/2019 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
English  
 ABYA YALA 
ABYA YALA / América Latina: o paraíso liberal virou inferno?
Date of publication at Tlaxcala: 25/10/2019
Original: America Latina: il paradiso liberista è diventato un inferno?

América Latina: o paraíso liberal virou inferno?

Achille Lollo

Edited by  Coletivo de tradutores Vila Mandinga

 

Ao longo de duas semanas, duas revoltas populares eclodiram, no Equador e no Chile, as quais, combinadas com os momentos de crise registrados anteriormente no Brasil, Colômbia, Argentina e Paraguai, põem em causa o projeto liberal e o papel político da classe política dominante nesses países, mais conhecida como "burguesia imperialista".

Os dramáticos relatos dos confrontos ocorridos nas capitais do Equador e do Chile, Quito e Santiago, repõem em discussão também o tema da resposta violenta dos setores populares e também da numerosa presença de jovens de classe média, agora empobrecida pelos programas da diferentes governos liberais. Por esse motivo, muitos cientistas políticos, e especialmente os economistas que idolatravam Milton Friedman, perguntam-se hoje se o paraíso liberal da América Latina virou inferno e, portanto, uma bomba social perigosa, pronta para explodir a qualquer momento.

As revoltas populares e a resposta repressiva

No Equador, como no Chile e, antes, na Colômbia, na Argentina, no Paraguai e no Brasil, as manifestações pacíficas sempre foram atacadas com extrema violência pela polícia, com a intenção explícita de provocar resposta igualmente violenta dos manifestantes – operação que pode ser identificada como simples provocação da polícia. Infelizmente, a ordem de atirar e de massacrar os manifestantes com espancamentos ou gás lacrimogêneo tornou-se ação usual da polícia como meio para garantir a chamada ordem pública. Ou seja, a violência da repressão tornou-se a ferramenta prioritária para defender o funcionamento e a continuação sine qua non do paradigma político dos governos liberais da América Latina. De fato, para eles qualquer tipo de manifestação pacífica que questione o modelo político é considerado ataque ao Estado. Razão pela qual a repressão é sempre mais violenta e implacável, não apenas para desmobilizar e desmotivar os manifestantes, mas sobretudo para permitir à mídia enaltecer a renovada capacidade do governo para controlar o país. Por isso se torna imperativo mostrar que se estaria combatendo o terrorismo e os "bandidos delinquentes saqueadores".

De fato, não é acaso que o presidente chileno Sebastian Piñera, logo após ter nomeado o general Javier Iturriaga para coordenar a intervenção do Exército em nove das dezesseis regiões do país, com 9.500 soldados, e impor o "Estado de Emergência", contextualizou esta decisão nos seguintes termos: "... Hoje o Chile está em guerra contra um inimigo poderoso, capaz de usar a violência sem limites ...". Palavras que foram exaustivamente ilustradas nos veículos de mídia e sobretudo na internet com as imagens dos saques nos supermercados. Uma manipulação extremamente educativa para os setores da classe média, que se consideram as vítimas potenciais dos "saqueadores suburbanos", motivo pelo qual reiteraram seu apoio político aos partidos de direita, subscrevendo – apesar dos efeitos da crise econômica – a validade do programa liberal e as respectivas regras do mercado e da dependência.

De fato, no Equador e no Chile, assim como nos outros quatro países mencionados, a mídia reproduziu incessantemente as imagens dos saques aos supermercados, conseguindo vulgarizar o levante popular e fazer crer que na América Latina existiria um plano subversivo oculto, da esquerda, para derrubar os governos liberais.
Um conceito divulgado pelo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, durante a viagem oficial ao Japão, divulgou na internet uma tremenda acusação, segundo a qual: "Em Santiago, a ação violenta dos manifestantes fazia parte de um projeto subversivo idealizado pelo Fórum de São Paulo, que é uma organização criada em 1991 pelos partidos de esquerda da América Latina. Tais manifestações visam à tomada do poder. Infelizmente, não nos libertamos completamente desses ditadores que, com atos de vandalismo e de terrorismo, tentam recuperar o que perderam nas urnas!"

Palavras que tiveram ampla repercussão nas televisões e nos jornais, criando um ciclo de manipulações contínuo, no qual as imagens de fundo eram sempre imagens de saques, sem dar espaço aos manifestantes. Por essa razão, na capital equatoriana, o líder da CONAIE (Confederación de Nacionalidades Indígenas del Ecuador), Jorge Vargas, declarava: "... A explosão da violência popular foi resposta espontânea à violência policial. As manifestações que ocorreram não queriam desafiar o modelo político do governo, mas apenas questionar algumas decisões específicas ... ". Verdade é que, no Equador, a revolta irrompeu quando o governo de Moreno decidiu cancelar o subsídio ao diesel, mesmo que 100% do transporte de mercadorias e pessoas nas províncias andina e amazônica fosse rodoviário! Também no Chile, os confrontos com a polícia teriam eclodido quando o governo Piñera, depois de aumentar o preço do bilhete de metrô, quis silenciar e dispersar os manifestantes.



"Nos tiraram tudo, até o medo" (Chile)

 

Há clima insurrecional?

Objetivamente, ninguém pode dizer que no Chile, no Equador, na Colômbia, no Paraguai, na Argentina e no Brasil haja clima insurrecional que fosse alimentado pelo Fórum de São Paulo para derrubar os governos liberais, como declararam os presidentes Bolsonaro do Brasil e Moreno, do Equador.

Em vez disso, há uma série de situações críticas que, devido à explosão da crise econômica em todo o continente sul-americano e à incapacidade intelectual e política dos atuais governantes, tornaram-se autênticas bombas sociais flutuantes, prontas para explodir a qualquer momento.

Infelizmente, muitos comentaristas internacionais, referindo-se à revolta de Quito e depois à de Santiago, mencionaram a existência de um possível clima insurrecional, artificialmente criado pela esquerda. Por esse motivo, o presidente equatoriano, Moreno, imediatamente após os primeiros confrontos em frente ao prédio do Parlamento, acusou logo o ex-presidente Rafael Correa e o venezuelano Nicolás Maduro, dizendo: "... Correa e Maduro conspiraram com o movimento indígena CONAIE para provocar minha demissão ... ". Também no Chile, o ministro do Interior e da Segurança, Andrés Chadwick, e o chefe do "Estado de Emergência", general Iturriaga del Campo, acusaram a esquerda: "... o MIR e o PCC, como os principais promotores da revolta e, portanto, dos confrontos com a polícia .... "

Em resposta, a presidente da Federação dos Sindicatos do Metrô, Paula Rivas, contatada por telefone afirmou: "... Na verdade, as pessoas saíram às ruas porque o aumento do preço do bilhete do metrô foi a gota que fez transbordar o copo! Hoje, os chilenos sofrem com as chamadas reformas do governo. Primeiro foi a reforma das pensões, que empobreceu ainda mais os aposentados. Sem esquecer o aumento indiscriminado das tarifas de energia elétrica, os aumentos das tarifas que ocorreram com a privatização das empresas públicas de água, das escolas, das universidades, dos hospitais e das clínicas. Nós somos contra a violência, mas concordamos com as demandas sociais, porque os trabalhadores não aguentam mais, e as condições de vida no Chile, hoje, são realmente críticas. O que eles chamavam de paraíso se tornou um inferno !!! ".

Nesse ponto, é necessário lembrar que, no Equador e no Chile, as manifestações foram promovidas por organizações populares e pelas comunidades de base para protestar contra as recentes decisões econômicas dos respectivos governos liberais. Manifestações que, no entanto, não tinham uma direção vinculada ou comprometida com os partidos da esquerda institucional. Em particular no caso chileno, pode-se dizer que houve atraso dos partidos de esquerda, que demoraram a declarar seu apoio às manifestações.

Por esse motivo, o ex-presidente equatoriano Rafael Correa, depois de ver as imagens do saque em um supermercado de Guayaquil, declarou imediatamente: "... O que está acontecendo paralelamente às manifestações contra o cancelamento do subsídio ao diesel, nada tem a ver com o movimento de protesto e, acima de tudo, não tem qualquer ligação com os organizadores das manifestações, que são os líderes da CONAIE...". Rafael Correa prossegue, referindo-se às imagens dos saques: "... Em um país onde o desemprego e o subemprego aumentaram dramaticamente, multiplicando os parâmetros da pobreza, onde todos os programas de integração e de redistribuição de renda foram cancelados e onde a boa qualidade de vida só é prioridade para as classes sociais ricas, fica claro que o governo e sua mídia pretendem confundir a opinião pública mistificando os excessos dos chamados delinquentes na praça! ... "

Na realidade, os saques ocorridos em alguns bairros das cidades chilenas de Santiago, Valparaíso e Concepción e nas equatorianas de Quito e Guayaquil são consequência direta da degradação social provocada pelos governos liberais. São também resultado de uma grave situação econômica, com pobreza cada vez mais absoluta e generalizada, enquanto a marginalização nos Bairros Metropolitanos tornou-se um fenômeno galopante. Assim é imperativo lembrar que os autores dos saques são os mais pobres, que aproveitam o momento de confusão para pegar alguns produtos que não podem mais comprar. E não é acaso que quase todas as pilhagens feitas nas cidades chilenas e equatorianas acima mencionadas aconteceram contra supermercados. Isso porque, hoje no Chile, o salário de 60% dos trabalhadores dura apenas 15 dias. Depois disso, para sobreviver, começa a corrida aos empréstimos. É drama que, infelizmente, se tornou comum no Chile, no Equador, no Brasil, na Argentina, no Paraguai e na Colômbia.

No entanto, o problema da pobreza e do crescente desemprego nos países latino-americanos acima mencionados, está associado à renovada violência policial contra as populações pobres. No Brasil, por exemplo, os batalhões especiais da polícia (Unidades de Polícia Pacificadora, UPPs) e os do exército, patrulham todas as entradas das favelas, para impedir que eventuais manifestações realizadas pelos habitantes das favelas cheguem no centro da cidade. Há um mês, os batalhões especiais da polícia do Rio de Janeiro começaram a disparar como loucos, para desmobilizar uma manifestação contra o custo de vida, promovida pelos moradores da favela Fazendinha. Um "show" gratuito de beligerância – tão cara ao presidente Bolsonaro – e que a mídia imediatamente minimizou, apesar da morte de uma menina de 8 anos, Agatha Félix.

Também no Chile, a atuação da Polícia, da divisão de Carabineros e dos 9.500 soldados mobilizados para vigiar as estradas principais, como na época do golpe de 1973, é ação de alta beligerância. Por essa razão, Manuel Delgado – antigo militante do Movimiento de la Izquierda Revolucionaria, MIR, chileno – resume a evolução dos confrontos, lembrando que: "... Os primeiros a protestar nas ruas foram os estudantes secundaristas, com alguns cartazes contra o governo, que, como você sabe, praticamente destruiu a educação pública transformando-a em mercadoria. Hoje, se você tiver dinheiro, vá para as melhores escolas, caso contrário, só há escolas para formar mão de obra especializada!... Entretanto a repressão foi imediata, violenta, e eu diria que planejavam produzir algo de mais amplo, com o qual desenvolver uma ação repressiva cada vez mais violenta e ampliada no território urbano. De fato, os confrontos ocorridos no centro da cidade continuaram até os limites dos Bairros Metropolitanos. O resto está nas reportagens dos jornais, que, por sua parte não disseram que os habitantes dos bairros populares só saíram às ruas depois que polícia e também o exército começaram a atirar. O tiroteio da polícia alimentou ainda mais a raiva dos manifestantes e, em função disso tudo houve uma resposta violenta dos manifestantes, que fizeram barricadas com ônibus em chamas para impedir que os soldados avançassem.

No entanto, excluo completamente a existência da uma dita direção subversiva oculta da esquerda que teria norteado a atuação das manifestações, como disse o general Iturriaga! (...) A verdade é que o povo que trabalha com salários muito baixos e, agora, vive em péssimas condições, está cansado de promessas e de fraudes!.... A verdade é que nessas condições a raiva explode na primeira oportunidade. Em tais situações tudo pode acontecer, precisamente porque essas manifestações que se transformam em revoltas populares espontâneas não têm direção nem controle político! ... "

E onde fica a esquerda?

Como disse recentemente Angela Davis: "... O Brasil é o país que me dá mais esperança na América Latina, porque o movimento popular está em clara recuperação. Os movimentos feministas e o movimento afro-americano são muito fortes, resistindo a qualquer tipo de intimidação. Além disso, as contradições sociais e econômicas são mais pronunciadas... "

Um contexto sociopolítico complexo, no qual a esquerda brasileira – a saber, o PT, o PSOL, o PCdoB, o PCB e todas as demais pequenas siglas –associada aos grandes movimentos populares organizados, em primeiro lugar o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, MST e a Central Única dos Trabalhadores, CUT, começaram a reagir após os golpes sofridos com o Impeachment de Dilma Rousseff, a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro. Por isso, disse João Pedro Stédile, líder do MST: "... A esquerda e as forças populares devem apresentar ao país um projeto estrutural capaz de garantir um emprego que seja remunerado justamente, e que melhore as condições de vida do povo. No entanto, para levar ao povo essas novas ideias e os novos programas políticos, a esquerda deve melhorar sua comunicação com as massas. Ou seja, precisamos renovar nossa metodologia pedagógica e trabalhar de maneira diferente para conscientizar as massas! ... ".

Infelizmente, esse é um dos grandes problemas que atinge todos os partidos e movimentos de toda a esquerda latino-americana. A falta de ferramentas tecnológicas e práticas para estabelecer contato direto com as massas, sem a interferência dos grandes meios de comunicação e, sobretudo, sem a chantagem das Tvs, das rádios e dos jornais que são controlados e administrados por fantoches das igrejas evangélicas. De fato, essas igrejas evangélicas, em quase todos os países da América Latina, tornaram-se autênticos colegiados eleitorais supostos espirituais, coligados exclusivamente com partidos da direita conservadora.
Por exemplo, na Colômbia, as igrejas evangélicas posicionaram-se abertamente contra o acordo de paz entre o governo e as FARC-EP (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo) e, em seguida, também contra o ELN (Exército de Libertação Nacional). No Equador, os evangélicos até apresentaram e financiaram a candidatura de um pastor [de nacionalidade sul-coreana! Vide 13’09” Portal do José, Brasil, 24/10/2019https://www.youtube.com/watch?v=7RWhNcyKbh0] nas eleições presidenciais, promovendo uma guerra de nível baixo contra os candidatos da lista formada pelo ex-presidente Rafael Correa. Deve-se lembrar também que, quando o presidente Moreno – depois de trair Rafael Correa e de se vender ao Departamento de Estado – mandou prender o vice-presidente, Jorge Glas, com a falsa acusação de corrupção, todos os pastores das igrejas evangélicas evocaram esse fato como "... O justo castigo de Deus e a libertação de um elemento diabólico! ... "!

Na Argentina, no Chile e no Paraguai quase todas as igrejas evangélicas apoiaram e continuam apoiando os candidatos dos partidos conservadores, associando, com muito oportunismo, serviços religiosos e a ‘obrigação’ de votar num ou noutro candidato.  Inútil repetir que, no Brasil, todas as igrejas evangélicas e pentecostais apoiaram e fizeram campanha por Bolsonaro!

No entanto, se no Brasil a decisão política só ocorrerá em 2024 com as eleições presidenciais, na Argentina o "paraíso infernal", criado pelo liberal Mauricio Macri, terminará como segundo turno das eleições presidenciais. De fato, todas as pesquisas indicam que o centro-esquerda, estendido ao peronismo ortodoxo do Partido Justicialista, será o vencedor dessas eleições com facilidade.

Mas a grande problemática da esquerda latino-americana, conforme foi sublinhado por João Pedro Stédile, é a necessidade absoluta de formular e realizar um programa político e um projeto de país originais, capazes de propor o trabalho como a principal componente da sociedade e, ao mesmo tempo, criar elementos políticos adequados para reafirmar o conceito de soberania, a responsabilidade social e uma nova consciência política.

http://tlaxcala-int.org/upload/gal_5861.jpg

 





Courtesy of Tlaxcala
Source: http://tlaxcala-int.org/article.asp?reference=27302
Publication date of original article: 25/10/2019
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=27303

 

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