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 23/05/2019 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
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 IMAGE AND SOUND 
IMAGE AND SOUND / Ex-arquiteto-chefe da catedral de Notre-Dame de Paris: “Estou muito surpreso, estupefato...”
Date of publication at Tlaxcala: 23/04/2019
Original: Benjamin Mouton, ex-architecte en chef de Notre-Dame-De-Paris, sur LCI : « Ça me stupéfie beaucoup... » [Version intégrale]

Ex-arquiteto-chefe da catedral de Notre-Dame de Paris: “Estou muito surpreso, estupefato...”

Various Authors - Autores varios - Auteurs divers- AAVV-d.a.

Translated by  Coletivo de tradutores Vila Mandinga

 

David Pujadas entrevista Benjamin Mouton, ex-arquiteto chefe de Notre Dame por 13 anos.

 

Locutor, David Pujadas: Temos muitas perguntas a fazer ao senhor, arquiteto Benjamin Mouton, a primeira das quais é: “Agora à noite, temos a certeza de que Notre Dame, o edifício está seguro, firme nos alicerces, que a estrutura foi preservada?”

Benjamin Mouton: Não. Não temos certeza. O fogo foi apagado, mas há material calcinado sobre as abóbadas [les voutes]. Antes de [o material calcinado] parar sobre as abóbadas houve um choque mecânico sobre as abóbadas. Vi a foto. Todos sabem que o “fecho” [as abóbadas sobre ogivas cruzadas[1]] é o ponto mais frágil [1”08’]. A madeira calcinada cai sobre a pedra, calcina a pedra e, pode-se dizer, a pedra é trabalhada a quente, a pedra perde sua capacidade mecânica. Todos sabem que a parte superior dos arcos é a parte fundamental da estrutura. Depois chegaram os bombeiros e molharam tudo isso. Agora temos o madeirame que é mais uma sobrecarga sobre os arcos. Acho que poderemos falar com mais precisão sobre o estado da catedral quando tudo ali se estabilizar, secar e pudermos reduzir as pressões sobre as abóbadas. Antes disso, não há o que dizer.

Locutor, David Pujadas: O senhor diz que se surpreendeu, talvez nem tanto pelo fogo, mas por se ter propagado e aumentado tanto, tão rapidamente?

Benjamin Mouton: [1”53’] Muito. Muito surpreendente. Na verdade, completamente incompreensível. Fiquei e continuo estupefato. É carvalho antiquíssimo. E queimou como um fósforo? Como se fosse um combustível muito, muito volátil? Não compreendo. Absolutamente não compreendo. É... muito impressionante.

Outro entrevistador 1: [2”10’] O senhor tem ideia de qual pode ter sido a origem?

Benjamin Mouton: Origem? Que...

Outro entrevistador 1: Do fogo, a origem do fogo.

Benjamin Mouton: Não faço ideia. Não tenho ideia.

Locutor, David Pujadas: Claro, não há certeza, um acidente sempre é possível, mas, como o senhor disse, a propagação foi surpreendente.

Benjamin Mouton: A propagação do fogo é estranha, extremamente curiosa. Parece que começou na croisée [“fecho” central], e propagou-se pelo [por cima do] coro[2] [direção norte-sul-norte] e [por cima do] transepto [direção leste-oeste-leste, até o “fecho” central].

Locutor, David Pujadas: Há aquela área chamada ‘a floresta’, uma área em que o madeirame é muito volumoso. Há quem diga que aquela ‘floresta’ poderia queimar como lenha. Mas o senhor está dizendo que esse tipo de madeira não queima assim.

Benjamin Mouton: Não, não queima. Aquele carvalho tinha 800 anos. É muito duro. Não estou dizendo que não queime, mas nunca queimará assim. Não, não. Seria preciso uma enorme pilha de lenha e gravetos, para fazer queimar esse carvalho. Não, não. Fiquei absolutamente estupefato.

Locutor, David Pujadas: E a que hipótese essa reflexão o leva?

Benjamin Mouton: [Suspira] Não sei. Não tenho hipótese alguma. De que hipótese se poderia cogitar... Foi rápido demais. Talvez houvesse algo que se devesse ter feito, para que não queimasse tão rapidamente... Perco-me em conjecturas e não atino... Pouco antes de eu me aposentar, quer dizer, em 2010, refizemos toda a instalação elétrica de Notre Dame. Não há possibilidade de um curto circuito. Não foi isso. Refizemos e modernizamos toda a estrutura de proteção contra incêndios, da catedral. Com elementos de controle de temperatura, aspiradores etc., etc., que permitiria detectar qualquer início de incêndio. Há dois homens permanentemente, dia e noite, para dar o alarme ao primeiro sinal de fogo.

Outro interlocutor 1: É possível que tenha havido uma falha nos sistemas de alerta? É possível?

Benjamin Mouton: Claro, tudo é possível. Mas fato é que foi um trabalho colossal e, como vocês sabem, em canteiros de obras em monumentos históricos, em Notre Dame sobretudo, seguimos um enquadramento normativo, técnico, de controle, etc., etc., considerável. Muito completo. Diferente de outros tipos de obras. Tudo foi feito. Só posso dizer que estou estupefato.

Locutor, David Pujadas: E nos 13 anos que o senhor foi chefe de construções, o senhor não soube de sinais de fogo, início de incêndios, nunca aconteceu?

Benjamin Mouton: Não. Nunca. Felizmente.

Outro interlocutor 2: O trabalho de restauração de um monumento histórico de tantos séculos aumenta a fragilidade do próprio monumento. E outro problema q se coloca é a vigilância nesse tipo de canteiro de obras. Isso torna ainda mais desconcertante o que temos ouvido, que não haveria ninguém na obra, quero dizer, não havia nenhuma vigilância num monumento dessa importância. Não se pode compreender que não houvesse ali vigilância permanente. Quanto a isso, acho que a lei tem de ser aprimorada...

Benjamin Mouton: Sem dúvida o senhor tem razão, mas quero fazer alguns comentários. Primeiro, que depois que os operários deixam o canteiro, a segurança permanece, não sai. Os vigilantes de que falei, dois, têm a sua disposição vários instrumentos de avaliação e medida. Outro detalhe, é que esses aparelhos de vigilância permanente são alimentados de modo específico, sem nenhum risco de curto circuito. Mais uma observação, tem a ver com as estatísticas. Incêndios em monumentos históricos são praticamente zero, não acontecem.

Interlocutor 2: Não será porque há poucos monumentos tão importantes?

Benjamin Mouton: Não, não. Não há incêndios nesses monumentos porque são atentamente vigiados. Há procedimentos de vigilância drásticos muito específicos.

Locutor, David Pujadas: Sr. Mouton, o senhor nos descreve um quadro do qual não se pode descartar que alguém tenha provocado o incêndio ou, no mínimo, facilitado que se alastrasse.

Benjamin Mouton: Uma possibilidade dentre outras. Nada se sabe até aqui com segurança.

Outro interlocutor 1: O senhor não ouviu comentários, de técnicos, nada, sobre o incêndio?

Benjamin Mouton: Absolutamente nada. Só ouvi, de meu confrade Philippe Villeneuve, hoje encarregado dos monumentos históricos, que me autorizou a vir a esse programa, que só se sabe de um ponto onde o fogo começou, no ponto em que o coro encontra o transepto. Só me disse isso. E que não havia canteiro de obras nesse local do prédio. Não havia trabalhos lá.

Locutor, David Pujadas: Esse senhor que o senhor cita disse ao senhor que não havia trabalhos naquele local da catedral.

Interlocutor 3: Tenho uma pergunta, de quem não conhece muito o assunto, mas se se tinha ali um madeirame tão imponente, tão grande a ponto de ser chamado de “a floresta”, pergunto o seguinte: aquela madeira era especialmente protegida contra fogo? Algum produto?

Benjamin Mouton: A questão é que, para que esses produtos funcionem, têm de penetrar na madeira. E nada penetra em carvalho de 800 anos, seja fungicida, inseticida, antifogo, é impossível. Inviável. Se fosse possível, se teria feito.

Interlocutora: Só uma observação. Parece que há bem poucos meios para proteger monumentos desse tipo. Tenho a impressão de que é quase um milagre que não haja mais incêndios desse tipo. Também me chamou a atenção a eficiência com que o que podia ser retirado da catedral, obras de arte, tudo, foi retirado e salvo. Nenhum ferido. Claro que os bombeiros, os policiais de Paris, merecem todos os elogios...

Benjamin Mouton: Minha opinião é que, além disso tudo, também se deve levar em conta a arte daquela carpintaria, a conservação do madeirame, ao longo de tantos séculos, cada século acrescentou seus recursos. Um trabalho impressionante. Mas, sim, risco zero não existe.

Locutor, David Pujadas: A pergunta que fiz a todos, no início do programa. O senhor sente-se consolado, conformado...

Benjamin Mouton: Mas... consolado do quê? Não. Absolutamente não estou consolado nem conformado, não, de modo algum.

Locutor, David Pujadas: Acho que ontem houve um momento em que todos chegamos a temer que todo o prédio desabasse...

Benjamin Mouton: Não, não, de modo algum, esse risco sempre foi mínimo. É importante saber que as duas torres oeste são separadas da nave por muros nos quais há poucas, raras portas. Sempre foi altamente improvável, desde o início, que o fogo passasse para as torres ocidentais. Por sua vez, do lado de cá, há oito sinos na torre norte e dois sinos na torre sul, e ali, sim [se os sinos caíssem], o drama seria terrível. Mas não, não, nada me consola. Estou inconsolável.

NTs

[1] “O fecho de ogivas [fr. la croisée d'ogives] é órgão característico da arquitetura chamada, em geral, de gótica; esse fecho das ogivas é o princípio fundamental dessa arquitetura. Deve ser considerado uma das inovações mais fecundas de toda a história das artes. A palavra “ogiva” foi-se aos poucos afastando do sentido que tinha na Idade Média, quando designava não o arco, agudo ou arredondado, mas a nervura entrecruzada de uma abóbada. A ogiva, nessa acepção, era um apoio, não uma base, i.e. designava a nervura que reforça a abóbada. Daí que a definição correta para croisée d'ogives seja “intersecção de duas nervuras” [que nossos especialistas optaram por traduzir como “fecho da abóbada”], sobre a qual repousam os quatro compartimentos de uma abóbada de suportes. A abóbada com nervura é conhecida, entre especialistas em Idade Média como (fr.) croisée d’ogives) [com informações de Larousse Encyclopedie, aqui traduzidas].

[2] Fr. Choeur [aqui traduzido como “coro”, à espera de confirmação], é a área atrás da mesa na qual o sacerdote celebra missa. Veja aqui, de outra igreja gótica.





Courtesy of Tlaxcala
Source: https://gaideclin.blogspot.com/2019/04/ex-architecte-en-chef-de-notre-dame-de.html
Publication date of original article: 18/04/2019
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=25895

 

Tags: Incêndio de Notre-DameBenjamin MoutonMistérios de ParisCaminhos impenetráveis
 

 
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