TLAXCALA تلاكسكالا Τλαξκάλα Тлакскала la red internacional de traductores por la diversidad lingüística le réseau international des traducteurs pour la diversité linguistique the international network of translators for linguistic diversity الشبكة العالمية للمترجمين من اجل التنويع اللغوي das internationale Übersetzernetzwerk für sprachliche Vielfalt a rede internacional de tradutores pela diversidade linguística la rete internazionale di traduttori per la diversità linguistica la xarxa internacional dels traductors per a la diversitat lingüística översättarnas internationella nätverk för språklig mångfald شبکه بین المللی مترجمین خواهان حفظ تنوع گویش το διεθνής δίκτυο των μεταφραστών για τη γλωσσική ποικιλία международная сеть переводчиков языкового разнообразия Aẓeḍḍa n yemsuqqlen i lmend n uṭṭuqqet n yilsawen dilsel çeşitlilik için uluslararası çevirmen ağı la internacia reto de tradukistoj por la lingva diverso

 25/09/2017 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
English  
 UNIVERSAL ISSUES 
UNIVERSAL ISSUES / Sangue nas trilhas* das Novas Rotas da Seda
Date of publication at Tlaxcala: 18/06/2017
Original: Blood on the tracks of the New Silk Roads
Translations available: Français 

Sangue nas trilhas* das Novas Rotas da Seda

Pepe Escobar Пепе Эскобар

Translated by  Coletivo de tradutores Vila Vudu

 

O imperativo cardeal da política externa da China é não interferir em outros países, enquanto faz avançar as proverbiais boas relações com atores políticos chaves – ainda que estejam engalfinhados uns contra outros.


Seja como for é de embrulhar o estômago de Pequim ter de assistir ao atual imprevisível impasse entre sauditas e qataris. Não há solução à vista, e cenários possíveis plausíveis incluem até mudança de regime e alteração geopolítica de proporções sísmicas no Sudoeste da Ásia – que visão ocidente-cêntrica chama de Oriente Médio.

E sangue nas trilhas no Sudoeste da Ásia só significa problemas ainda maiores à frente para as Novas Rotas da Sede, agora sob nova denominação de Iniciativa Cinturão e Estrada, ICE [ing. Belt and Road Initiative, BRI].

Quando disse oficialmente que "Decidi (...) que é chegada a hora de exigir que o Qatar pare de financiar [o terrorismo]", o presidente Trump apenas assumiu como seus os créditos pela excomunhão orquestrada de Doha, resultado daquela já famosa dança das espadas Riad.


O alto staff de Trump contudo continua a afirmar que o Qatar jamais participou de discussões com os sauditas. O secretário de Estado Rex Tillerson, ex-presidente da Exxon-Mobil e conhecido agente operativo no Oriente Médio, fez o que pôde para diluir o drama – sabendo que não haveria razão para que o Qatar continuasse a abrigar em seu território a Base Aérea Al Udeid e o Centcom, para potência hostil.

Entrementes, a Rússia – entidade maligna preferida dentro do governo dos EUA – vai-se aproximando mais e mais do Qatar, desde a aquisição, que tudo mudou no início de dezembro, pela Autoridade Qatari para Investimentos, AQI [ing. Qatar Investment Authority, QIA] de 19,5% da gigante coroada de energia, Rosneft.

Esse movimento traduz-se como uma aliança econômico/política entre os dois maiores exportadores de gás do planeta; e explica por que Doha – que oficialmente ainda tem gabinete permanente no quartel-general da OTAN – repentinamente jogou debaixo do ônibus (econômico) os seus "rebeldes moderados" na Síria.

Rússia e China são unidas numa parceria estratégica complexa, de vários vetores. Pequim, privilegiando interesses econômicos, assume visão pragmática e jamais se inclina na direção de desempenhar papel político. Como maior produtor e exportador de manufaturas, o lema de Pequim é absolutamente claro: Faça comércio, Não Faça guerra.

Mas e se o Sudoeste Asiático vir-se em futuro próximo atolado em perenes relações de pré-guerra por todos os lados?

Irã, o melhor amigo da China e da ICE

China é a principal parceira comercial do Qatar. Pequim estava negociando ativamente um acordo de livre comércio com o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), antes dos atuais desentendimentos. Mais alguns passos à frente, cenário possível é até que o Qatar saia do CCG.

O Qatar é também a segunda maior fonte de gás natural liquefeito (GNL) para a China, e a Arábia Saudita é a terceira maior fonte de petróleo para a China. Desde 2010 a China está à frente dos EUA como maior exportador para o Sudoeste da Ásia, ao mesmo tempo em que firma a própria posição como maior importador de energia do Sudoeste da Ásia.

Recentemente, quando o rei Salman visitou Pequim, a Casa de Saud pôs-se a falar, em êxtase, de uma "parceria estratégica sino-saudita" baseada nem contratos assinados no total de $65 bilhões. A parceria, na verdade, baseia-se num acordo de cooperação em segurança, de cinco anos, entre Arábia Saudita e China, que inclui exercícios conjuntos de contraterrorismo e militares. Muito terá a ver com manter livre de qualquer tumulto político o lucrativo corredor Mar Vermelho-Golfo de Áden.

Claro, haverá quem faça cara de desagrado porque o wahhabismo saudita é a matriz ideológica do jihadismo salafista que ameaça não só o Sudoeste da Ásia e o ocidente, mas também a própria China.

As Novas Rotas da Seda, hoje ICE, implicam papel chave para o CCG – num investimento mútuo, marca registrada do modo chinês de "ganha-ganha". Num mundo ideal, a "Visão 2030" dos sauditas, de modernização, que o príncipe guerreiro Mohammed Bin Salman (MBS) vende praticamente sem pausa para respirar, poderia, em teoria, até conquistar o interesse do jihadismo salafista do tipo Daech por todo o Sudoeste da Ásia.

O que o príncipe MBS, iranofóbico, parece não compreender é que Pequim realmente privilegia o seu relacionamento econômico baseado na Iniciativa Cinturão e Estrada, ICE, com Teerã.

No início do ano passado, quando o presidente Xi Jinping visitou Teerã, ele e o presidente Rouhani prometeram elevar o comércio bilateral China-Irã para colossais $600 bilhões em dez anos, praticamente todo o aumento relacionado à expansão da ICE.


China e Irã estão envolvidos em negócios sérios. Já há mais de um ano, trens de carga diretos entre China e Irã atravessam a Ásia Central em apenas 12 dias. E é só um aperitivo, antes da conexão completa por ferrovias de alta velocidade que cobrirão todo o arco da China à Turquia, via Irã, no início dos anos 2020s.

E em futuro distante (talvez nem tanto), uma Síria pacificada também será configurada como um dos nodos da Iniciativa Cinturão Estrada; antes da guerra, mercadores sírios eram figura de destaque no comércio de itens pequenos na Rota da Seda que vai do Levante a Yiwu na China ocidental.

ICE tem a ver com Turquia, Egito e Israel

A Rota Marítima da Seca chinesa nada tem a ver com algum "colar de pérolas" [de bases militares] ameaçador –, mas com infraestrutura de portos, construídos por empresas chinesas, que configuram pontos de parada chaves ao longo da ICE, do Oceano Índico via o Mar Vermelho e Suez até o porto grego de Pireus no Mediterrâneo. Pireus é propriedade da chinesa COSCO, que também opera o porto, desde agosto de 2016; esse moderno terminal de contêineres para comércio entre Leste e Oeste da Ásia já é o porto que cresce mais rapidamente em toda a Europa.

Por sua parte, o presidente Recep Tayyip Erdogan da Turquia já deixou bem claro que o interesse nacional da Turquia envolve o "Canal de Suez, mares adjacentes e dali até o Oceano Índico." Ao mesmo tempo em que Ancara instalou uma base no Qatar – agora há recebendo soldados –, também estabeleceu um Conselho de Cooperação Estratégica Turco-saudita.

Ancara pode estar-se engajando lenta e firmemente num 'pivô' em direção à Rússia –, no sinal verde para o Ramo Turco. Mesmo assim, também se pode falar de 'pivô' na direção da China – que também se deve desenvolver, percalços incluídos, em todas as áreas chaves, desde passar a ser membro do Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura (BAII), até passar a integrar a Organização de Cooperação de Xangai (OCX).

Ambos os países, Turquia e Irã – também possível membro pleno da OCX para o próximo ano –, estão apoiando ativamente o Qatar no presente impasse, inclusive mediante embarques regulares de alimentos. Vê-se assim mais uma vez como Pequim simplesmente não se pode deixar arrastar politicamente para o que é, na essência, a intratável, viciosa guerra pelo poder regional entre Irã e sauditas. Mais uma vez, a Iniciativa Cinturão Estrada supera tudo.

O Egito implica problema extra. Está alinhado com Riad, no atual impasse: afinal, o marechal-de-campo presidente Al-Sisi depende da "prodigalidade" da Casa de Saud.

Mas a nova capital no Egito, do tamanho de Cingapura a leste do Cairo é essencialmente financiada por investimento chinês: $35 bilhões ao final do ano passado, e aumentando. Brindes extras incluem Pequim facilitar a troca de moedas – provendo um empurrão muito necessário na economia egípcia. Ahmed Darwish, presidente da Zona Econômica do Canal de Suez, só tem elogios para o principal investidor no Corredor do Canal de Suez, que é Pequim, por falar dela.

E há também a nascente Conexão Israelense-Chinesa. Israel apoia a guerra-relâmpago de sauditas-Emirados Árabes Unidos contra o Qatar como, essencialmente, mais uma frente de guerra 'à distância' contra o Irã.

China está apostando em construir a ferrovia para trens de alta velocidade que ligará os mares Vermelho e Mediterrâneo. Se o proverbial oceano de contêineres puder ser acomodado perto de Eilat, os chineses poderão transferir a carga pela ferrovia Vermelho-Mediterrâneo até o Corredor do Canal de Suez, do qual os chineses já tomaram conta.


Construir a conectividade é ação frenética em todas as frentes. O Grupo Porto Internacional de Xangai [ing. Shanghai International Port Group] já controla o porto de Haifa. A China Engenharia de Portos [ing. China Harbor Engineering] construirá um novo porto de $876 milhões em Ashdod. Israel já é a principal fornecedora de tecnologia agrícola para a China – por exemplo, para dessalinização de água, aquicultura e criação de gado, por exemplo. Pequim quer importar de Israel mais tecnologia biomédica, de energia limpa e de telecomunicações. Suspense nessa relação é a iminente integração de Israel também como membro do BAII.

Não é exagero dizer que, doravante, tudo que aconteça no Sudoeste da Ásia será condicionado por e inter-relacionado à super rodovia-empório terra-mar da ICE, do Leste e Sudeste da Ásia até o sudeste da Europa.

Focada no movimento amplo da ICE na direção da multipolarização, da globalização 2.0 "inclusiva" e na rápida disseminação da tecnologia da informação, a última coisa de que Pequim precisaria seria qualquer retrocesso forçado: algum impasse fabricado, enlouquecido, como o novo front de guerra existencial à distância entre a Casa de Saud e o Irã, e com Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Israel engalfinhados contra Qatar, Turquia, Irã – e Rússia.

Não há dúvidas de que a insônia tem atormentado as noites no Zhongnanhai**.

NTs

* "E antes que alguém pergunte, sim, o título é homenagem a Dylan. Estamos todos enredados em... sangue,* não em nostalgia" (15/6/2017, Pepe Escobar, no Facebook). Blood on the Tracks [Sangue nas trilhas] é álbum de Bob Dylan, de 1975. Abre com a faixa "Tangled Up in Blue" [aprox. "Enredado em nostalgia/saudade"]. Pepe Escobar dá belo uso à semelhança (mais 'gráfica' que fonética) entre blue /blu/ e blood /blʌd/.

** Zhongnanhai é um complexo de edifícios em Pequim, a oeste da Cidade Proibida, onde estão instalados o Diretório Central do Partido Comunista da China e a sede oficial do governo da República Popular da China [wikipedia].

 

 





Courtesy of Tlaxcala
Source: http://www.atimes.com/article/blood-tracks-new-silk-roads/
Publication date of original article: 14/06/2017
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=20761

 

Tags: Novas Rotas da SedaQatarIniciativa Cinturão e EstradaArabia sauditaChinaIrãEUA
 

 
Print this page
Print this page
Send this page
Send this page


 All Tlaxcala pages are protected under Copyleft.