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 12/12/2017 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
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 CULTURE & COMMUNICATION 
CULTURE & COMMUNICATION / Um mergulho na cultura árabe: Enigmas da Primavera de João Almino
Date of publication at Tlaxcala: 03/12/2016
Translations available: Français 

Um mergulho na cultura árabe: Enigmas da Primavera de João Almino

Adelto Gonçalves

 

Se para conhecer a São Petersburgo do século XIX, é preciso ler Fiódor Dostoiévski (1821-1881), tal como para descobrir detalhes do Rio de Janeiro do final daquele século é fundamental percorrer os romances de Machado de Assis (1839-1908), daqui a cem anos, certamente, para saber como era (ou é) a cidade de Brasília (e o Brasil) deste começo de século XXI, será necessário ler Enigmas da Primavera (Rio de Janeiro: Editora Record, 2015), o novo (e sexto) romance do diplomata João Almino (1950). Trata-se da primeira obra de peso na literatura brasileira que não só traz para as páginas da ficção os movimentos políticos dos últimos anos, conforme observou o crítico Manuel da Costa Pinto (Folha de S. Paulo, 16/10/2015), como incorpora na prosa as novas tecnologias e formas de comunicação, como o e-mail, o iPhone, o iPad, o Facebook, o WhatsApp e outras redes sociais.

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A partir das chamadas Jornadas de Junho, que agitaram as grandes cidades brasileiras em 2013, o autor cria um jovem personagem, Majnun, neto de um antigo esquerdista, simpatizante da luta armada contra a ditadura civil-militar (1964-1985), que, a exemplo daqueles que foram às ruas, não sabe bem o que quer nem para onde ir. “Se não fosse a companhia de seu laptop, de seu iPhone e de seu iPad, seu mundo não seria mais do que uns poucos centímetros de chão de cimento rachado”, diz o narrador. Com o pai morto por overdose de droga e a mãe, viciada e psicótica, sem condições para assumir sua criação, os avós de Majnun seriam os seus verdadeiros progenitores,

Apaixonado pela cultura muçulmana, Majnun sonha abandonar a casa do avô e ganhar o mundo, indo de Brasília para Madri e, em seguida, para Granada, à época do 15-M (15 de maio de 2011), movimento de protesto que ganhou as ruas da capital espanhola, e da Primavera Árabe, que marcou a queda de vários regimes ditatoriais no mundo árabe.

Como um protagonista de romance picaresco, Majnun está em vários lugares, vê o mundo de fora, mas acaba por não se integrar à sociedade. “Aos 20 anos, ele era uma tela em branco”, diz o narrador. Não tinha vocação para se tornar militante político, como fora seu avô. “Não havia mais ditadura contra a qual lutar, e não era suficiente juntar-se à mediocridade, agregar uma pequena peça na engrenagem, corrigir uma injustiça aqui e outra ali, fazer um trabalho de formiguinha, tapar um buraco, consertar um defeito. Sua avó Elvira fazia projetos para prefeituras. Mas ele nunca conseguiria ser prático (...)”.

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II

Encantado pelas fábulas e histórias do mundo árabe e em busca de suas raízes, o protagonista do romance depara-se com o paradoxo multissecular do fundamentalismo islâmico, que, em seus primórdios, assumia a tolerância como comportamento ético, mas que, hoje, dividido por facções radicais, faz da intolerância o seu lema.  Por isso, romântico, contraditório e imprevisível, Majnun encarnaria as idiossincrasias da juventude dos dias de hoje. “Majnun é um jovem enfadado com seu cotidiano, que busca preencher seu vazio nas redes sociais. Tem todo um futuro pela frente, que, em vez de alimentar sua utopia, o faz mergulhar inicialmente num pensamento antiutópico, já que flerta com a volta a um passado que nunca vivenciou”, diz o narrador. É de se acrescentar que, em árabe, Majnun  significa louco.

Dividido pela atração por três mulheres – especialmente, Laila, casada, mais velha que ele quinze anos –, Majnun, “o homem que amava demais”, envolve-se numa trama densa e sedutora, que atrai do começo ao fim. E que ao mesmo tempo, não só consagra como mostra o perfeito domínio que o ficcionista João Almino tem de seu ofício, ao passar ao leitor uma reflexão sobre o atual estágio político do Brasil deste século em que os jovens não vêem a saída nem o futuro e protestam sem saber o que colocar no lugar daqueles que lhes causam repulsa porque não encontram líderes confiáveis.

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III

Não bastasse a erudição do autor, que, de fato, preparou-se para escrever este romance, mergulhando no estudo da história árabe e de sua influência na Espanha de ontem e de hoje, o livro traz ainda um percuciente e esclarecedor prefácio de João Cezar de Castro Rocha, que ajuda o leitor a conhecer os caminhos que o romancista percorreu para construir a sua ficção neste livro labiríntico, ao mostrar que a trama de Enigmas da Primavera “atualiza, ou seja, transforma, a mais divulgada história de amor da literatura árabe, transmitida oralmente e codificada, no século XII, pelo poeta persa Nizami – e, desde então, reescrita um sem-fim de vezes”. De fato, como observa o prefaciador, o protagonista do romance carrega o nome do personagem do poema de Nizâmî ou Nizman ou Nezami Ganjavi (1141-1209), “Layla y Majnún”, que tem um pequeno trecho reproduzido como epígrafe em tradução de Jordi Quingles.

Como se sabe, “Laila e Majnun”, uma espécie de “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare (1564-1616), da literatura persa, é um conto folclórico em versos e seu protagonista está associado a um homem que, de fato, teria existido, Qays Ibn al-Mulawwah, que viveu, provavelmente, na segunda metade do século VII d.C., no deserto de Najd, na Península Árabe. Esse poema épico, dedicado ao rei Shirvanshah, com cerca de 8 mil versos, em 1188, tornou-se tema de populares canções, sonetos e odes de amor entre os beduínos ao longo dos séculos.

IV

João Almino, nascido em Mossoró, Rio Grande do Norte, diplomata, é autor de seis romances. Fez doutoramento em Paris, orientado pelo filósofo Claude Lefort (1924-2010), ex-professor da Sorbonne, da École des Hautes Études en Sciences Sociales e da Universidade de São Paulo (USP), que teve como tutor o fenomenologista Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), cujas publicações póstumas editou. 

Almino ministrou aulas na Universidade Nacional Autónoma do México (Unam), na Universidade de Stanford e na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. Parte de sua obra está traduzida para o inglês, o francês, o espanhol e o italiano, entre outras línguas. Tem também escritos de história e filosofia política, que são referência para os estudiosos do autoritarismo e da democracia.

Vencedor de prêmios como o Casa de las Américas de 2003 e o Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura de 2011, área de ficção, entre outros, João Almino é autor ainda de Ideias para Onde Passar o Fim do Mundo (1987), Samba-Enredo, (1994), As Cinco Estações do Amor (2001), O Livro das Emoções (2008) e Cidade Livre (2010).

Na área de não-ficção, incluem-se Os Democratas Autoritários (1980), A Idade do Presente (1985), Era uma vez uma Constituinte (1985), O Segredo e a Informação (1986), Brasil-EUA: Balanço Poético (1996), Literatura Brasileira e Portuguesa Ano 2000, organizado com Arnaldo Saraiva (2000), Rio Branco, a América do Sul e a Modernização do Brasil, organizado com Carlos Henrique Cardim (2002), Naturezas Mortas – A Filosofia Política do Ecologismo (2004), Escrita em Contraponto – Ensaios Literários (2008) e O Diabrete Angélico e o Pavão: enredo e amor possíveis em Brás Cubas (2009).

 

Enigmas da Primavera, de João Almino.

Rio de Janeiro: Editora Record

287 págs., 42 reais, 2015

 

 

 

 

 

 

 





Courtesy of Tlaxcala
Source: http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=19419
Publication date of original article: 29/11/2016
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=19419

 

 
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