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 17/10/2017 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
English  
 UNIVERSAL ISSUES 
UNIVERSAL ISSUES / O longo (20 anos!) pas de deux de Rússia e EUA está chegando ao fim?
Date of publication at Tlaxcala: 17/10/2013
Original: 1993-2013: is the twenty years long "pas de deux" of Russia and the USA coming to an end?
Translations available: Français 

O longo (20 anos!) pas de deux de Rússia e EUA está chegando ao fim?

The Saker El Saqr Балобан الصقر

Translated by  Coletivo de tradutores Vila Vudu

 

As recentes tensões entre União Europeia e Rússia, por causa do “basta” que o Greenpeace recebeu no Ártico só confirma um fato que já ninguém perde tempo com tentar desmentir: as elites políticas e financeiras ocidentais absolutamente odeiam Putin e estão em pânico ante o comportamento da Rússia, seja dentro da Rússia seja na cena internacional.

Essa tensão estava bem visível na fisionomia de Obama e Putin na reunião do G8 em Lough Erne,[1] onfr ambos se mostravam absolutamente incomodados um com o outro. As coisas pioraram quando Putin fez algo jamais visto na história da diplomacia russa: disse publicamente que Kerry é desonesto, e até o chamou de mentiroso.[2]


Apesar de as tensões terem atingido uma espécie de clímax na questão síria, os problemas entre Rússia e EUA nada têm de novidade. Rápido exame do passado recente basta para mostrar que a empresa-imprensa ocidental dedica-se empenhada e sustentadamente numa campanha estratégica para identificar e explorar qualquer pressuposta fragilidade no “escudo político” russo, e para pintar a Rússia como se fosse país mesquinho, não democrático e autoritário ou, em outras palavras, grave ameaça para o ocidente. Basta listar alguns episódios da campanha de difamação da Rússia (na ordem em que me ocorrem agora):
 
  • Berezovsky apresentado como empresário “processado”
  • Politkovskaya “assassinada pelos assassinos da KGB”
  • Khodorkovsky na cadeia, por seu amor à “liberdade”
  • A “agressão” da Rússia contra a Georgia 
  • As guerras “genocidas” dos russos contra o povo checheno
  • “Pussy Riot” [Agito das Bucetas] como “prisioneiras de consciência”
  • Litvinenko “assassinado por Putin”
  • Homossexuais russos “perseguidos” e “maltratados” pelo estado
  • Magnitsky e, na sequência, a “Lei Magnitsky”
  • Snowden como “traidor escondido na Rússia”
  • “Eleições roubadas” para a Duma e para a presidência
  • A “Revolução Branca” na praça Bolotnaya
  • O “novo Sakharov” (Alexei Navalnyi)
  • O “apoio da Rússia” a “Assad, o “açougueiro (químico) de Bagdá”
  • A constante “intervenção dos russos” em assuntos da Ucrânia
  • O “total controle”, pelo Kremlin, sobre a mídia russa
 

A lista nem se aproxima de ser completa, mas basta para nossos objetivos. Permitam acrescentar imediatamente, aqui, que meu objetivo hoje não é desmentir todas essas acusações, uma a uma. Já o fiz várias vezes nesse blog. Quem se interesse, que procure. Hoje, me dedicarei apenas a declarar algo extremamente importante, que não posso provar, mas do que estou absolutamente convencido, sem sombra de dúvida: 90% ou mais do público russo considera todas essas ‘causas’ perfeito, absoluto nonsense, tolices, não questões infladas até se converterem... não se sabe em que, se não totais sandices. Além disso, a maioria dos russos acreditam que as chamadas “forças democráticas” que as elites ocidentais apoiam na Rússia (Iabloko, Parnas, Golos, etc.) são, basicamente, agentes pagos para fazer propaganda pró-ocidente, sustentados pela CIA, pelo MI6, por George Soros e por oligarcas judeus exilados. O que é garantido é que, exceto esses pequenos grupos liberais/democráticos, ninguém, na Rússia leva a sério essas acusações. A maioria dos russos vê essas questões exatamente pelo que são: campanha de difamação.

Em muitos sentidos, tudo isso é ainda reminiscência de como eram as coisas na Guerra Fria, quando o ocidente usou seus imensos recursos de propaganda para demonizar a União Soviética e apoiar forças antissoviéticas em todo o mundo, inclusive dentro da própria URSS. Entendo que esses esforços foram muitíssimo bem-sucedidos e que, à altura dos anos 1990s, a vasta maioria dos soviéticos, inclusive os russos, estavam muito desgostosos com seus líderes. Assim sendo, por que a diferença, hoje?

Para responder essa pergunta, temos de olhar na direção do passado, dos processos que aconteceram na Rússia nos últimos 20 anos aproximadamente, porque só assim, só se conhecermos o que houve nessas duas décadas, será possível chegar à raiz dos atuais problemas entre EUA e Rússia.
 

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Quando a União Soviética realmente desapareceu?

A data oficial do fim da União Soviética é 26/12/1991, dia em que o Soviete Supremo da União Soviética adotou a Declaração n. 142-Н, que oficialmente reconheceu a dissolução da União Soviética como estado, submetido à lei internacional. Mas esse é mofo muito superficial, formal, de ver as coisas. Alguém poderia argumentar que a União Soviética encolheu até ficar do tamanho da Federação Russa, mesmo assim ela sobreviveu nessas fronteiras reduzidas. Afinal, leis não mudam da noite para o dia, muito menos grande parte da burocracia. Mesmo que o Partido Comunista tenha sido banido depois do golpe de agosto de 1991, o resto do aparato do estado continuou a existir.

Para Eltsin e seus apoiadores, essa realidade criou situação MUITO difícil. Já tendo banido o Partido Comunista da União Soviética e desmantelado a KGB, os liberais de Eltsin ainda enfrentavam um adversário formidável: o Soviete Supremo da Federação Russa, o Parlamento da República Russa Soviética Federativa Socialista – eleito pelos deputados do Congresso do Povo da Federação Russa. Ninguém aboliu essa instituição MUITO soviética, que rapidamente se tornou o centro de quase todas as forças anti-Eltsin e pró-Sovietes no país. Não posso aqui entrar nos detalhes desse pesadelo legal. Basta dizer que o Soviete Supremo apresentou-se como “Parlamento Russo” (o que, de fato, não era) e que seus membros engajaram-se numa campanha sistemática para impedir que Eltsin implementasse suas “reformas” (em termos bem gerais, pode-se dizer que tentaram impedir que Eltsin arruinasse o país).  Pode-se dizer que a “nova Rússia” e a “velha URSS” disputavam entre elas o futuro do país. Como seria de prever, o Soviete Supremo desejava uma democracia parlamentarista, e Eltsin e seus liberais queriam uma democracia presidencialista. Os dois lados mostravam o que, para a maioria dos russos, parecia ser claro contraste:

1) O presidente russo Bóris Eltsin: oficialmente, representava a Rússia, em oposição à União Soviética; se autoapresentava como anticomunista e democrata (esqueçam que ele fora membro de alto escalão do Partido Comunista da União Soviética e membro não votante do Politburo!). Eltsin era também muito claramente o queridinho do ocidente, e prometia integrar a Rússia ao mundo ocidental.

2) O Soviete Supremo: comandado por Ruslan Khasbulatov[3] com o apoio do vice-presidente da Rússia, Alexander Rutskoi,[4] o Soviete Supremo tornou-se o ponto em torno do qual se reuniram todos os que acreditavam que a União Soviética fora ilegalmente dissolvida (o que é verdade) e contra o desejo da maioria do povo russo (o que também é verdade). Muitos, embora não todos, os apoiadores do Soviete Supremo eram, se não completos comunistas, com certeza, no mínimo, socialistas e anticapitalistas. Grande parte do muito desorganizado movimento nacionalista russo também apoiava o Soviete Supremo.

Nós todos sabemos o que aconteceu: Eltsin esmagou a oposição num vastíssimo banho de sangue, muito pior do que o noticiado pela empresa-imprensa ocidental (ou russa). Escrevo isso com alto grau de certeza, porque é informação que obtive de fonte muito boa: aconteceu que eu estava em Moscou naqueles dias trágicos, e em contato diário com um coronel de uma unidade das forças especiais mais secretas da KGB chamda "Vympel" (mais sobre isso, adiante), o qual me contou que a KGB, para efeito interno, estimava que o número de pessoas assassinadas no Moscow Oblast chegara bem perto de 3.000. 

Sou testemunha ocular, também, de que os combates duraram muito mais tempo do que reza a narrativa oficial: assisti a uma batalha de fogo ininterrupto, de metralhadora, exatamente abaixo da minha janela, que durou cinco dias inteiros, depois de o Soviete Supremo já se ter rendido. Insisto em anotar isso, porque acho que ilustra uma realidade muito frequentemente apagada: a chamada “crise constitucional de 1993” foi, na verdade, uma mini guerra civil, em que se disputou o destino da União Soviética. Só depois dessa crise é que a União Soviética realmente desapareceu.

Nos dias que precederam o assalto dos tanques contra o Soviete Supremo, tive a oportunidade de passar muito tempo com apoiadores do presidente e do Soviete Supremo. Tive tempo para longas conversas, tentando ver por mim mesmo o que cada lado defendia e se me deveria aliar a um ou a outro lado.  Cheguei a uma conclusão bem triste: os DOIS lados eram compostos, basicamente, de ex- (ou não ex-) comunistas; os DOIS lados diziam que defendiam a democracia e os DOIS lados se acusavam, um ao outro, de serem fascistas. De fato, os dois lados eram, isso sim, muito parecidos. Acredito que não fui o único a sentir isso, naqueles dias, e desconfio que muita gente na Rússia sentia, profundamente, exatamente a mesma coisa que eu, e terminaram realmente desgostosos de todos os políticos envolvidos ‘naquilo’.

Quero partilhar aqui uma história pessoal: aqueles foram dias pessoalmente muito divertidos para mim. Aqui estava eu, jovem, nascido numa família de russos emigrados e furiosamente antissoviéticos, que passara muito anos combatendo contra o sistema soviético e, especialmente, contra a KGB. E, mesmo assim, por ironia, acabei passando praticamente todo o meu tempo na companhia de um coronel de uma unidade das forças especiais da KGB (o modo como nos encontramos é longa história, para outro postado). O mais divertido para mim foi o fato de que, apesar de todas as nossas diferenças, nós dois tivemos exatamente a mesma reação aos eventos que se desenrolavam ali, diante dos nossos olhos. Os dois decidimos que não poderíamos nos alistar em nenhum dos dois lados em conflito – os dois lados nos pareciam igualmente repugnantes. 

Eu estava no apartamento dele, quando ele recebeu um telefonema do quartel general da KGB, ordenando-lhe que se apresentasse num ponto da cidade, para preparar-se para um assalto, pelas forças especiais, contra a “Casa Branca” (apelido ‘de rua’, do prédio do Parlamento Russo) – ele recusou-se a obedecer, disse ao chefe que não ia e desligou o telefone. Não foi o único, nessa resposta: como em 1991, nem os soldados regulares russos nem os agentes das forças especiais russas aceitaram atirar contra russos (outros, pressupostos mais “democráticos”, atiraram sem dó). Em vez de obedecer aos chefes, meu novo amigo dedicou-se a dar-me vários conselhos, muito úteis, sobre como retirar de Moscou um parente meu, em segurança, sem sermos nem mortos nem presos (falante nativo da língua russa, com passaporte estrangeiro, eu absolutamente não estava em segurança em lugar algum, naqueles dias).

Quis contar essa história aqui, porque ela mostra algo muito importante: em 1993, uma vasta maioria de russos, inclusive emigrados exilados, e até coronéis das forças especiais da KGB, estavam muito desgostosos, de fato, estávamos fartos, dos DOIS partidos envolvidos naquela crise. De certo modo, poder-se-ia dizer que muitos russos estavam à espera de que surgisse uma TERCEIRA força, na cena política.

De 1993 a 1999 – um pesadelo democrático

Depois de os bandidos de Eltsin terem esmagado a oposição, as portas do inferno realmente se abriram na Rússia: o país inteiro foi tomado por máfias, e os vastos recursos nacionais russos foram pilhados por oligarcas (judeus, a maioria deles). A chamada “privatização” da economia russa criou dois grupos: um de poucos multimilionários, e outro, de dezenas de milhões de miseráveis que mal conseguiam sobreviver. Em todas as cidades cresceu a criminalidade, a infraestrutura nacional entrou em colapso e muitas regiões da Rússia passaram a planejar ativamente para separarem-se da Federação Russa. A Chechnia foi autorizada a separar-se da Federação Russa, depois de uma guerra grotesca e sangrenta, em que se viram os militares russos ser apunhalados pelas costas, pelo Kremlin. 

E ao longo de todos aqueles anos infernais, as elites ocidentais garantiram o mais pleno apoio a Eltsin e aos seus oligarcas. A única exceção a essa festa amorosa, foi o apoio político, econômico e militar que a anglosfera deu aos chechenos insurgentes. 

Até que o que tinha de acontecer afinal aconteceu: o país declarou falência em 1998, ao desvalorizar o rublo e dar calote nas dívidas. Embora não se venha jamais a saber com certeza, creio firmemente que, em 1999, a Rússia esteve a poucos passos de sumir completamente, como país e como nação.

O legado deixado pelos liberais/democratas

Tendo esmagado a oposição em 1993, os liberais russos obtiveram completa liberdade para escrever uma nova Constituição que servisse perfeitamente aos seus objetivos. E, com a visão caolha que lhes é típica, adotaram uma nova Constituição que dava poderes imensos ao presidente e poderes realmente mínimos ao novo Parlamento, a Duma Russa. Chegaram até a abolir o posto de vice-presidente (não queriam algum outro Rutskoi, a sabotar os planos deles).

Mesmo assim, nas eleições presidenciais de 1996, os liberais só por um triz não perderam tudo. Para horror deles, o candidato comunista Gennadi Zuiganov foi mais votado no 1º turno das eleições, o que obrigou os liberais a tomarem duas medidas: primeiro, claro, falsificaram os números da contagem oficial de votos; e, segundo, alinhavaram às pressas uma aliança com o general de exército Alexander Lebed, nome muito popular. Essas duas medidas tornaram possível para os liberais declarar vitória no 2º turno das eleições (embora, de fato, o vitorioso tenha sido Ziuganov). Também nesse caso, o ocidente apoiou Eltsin integralmente. Ora... E por que não apoiariam? Já haviam apoiado Eltsin no massacre dos apoiadores do Soviete Supremo. Por que não o apoiariam numa eleição roubada, OK? Perdidos por um, perdidos por mil.

Mas Eltsin só se dedicava empenhadamente, mesmo, a manter-se quase ininterruptamente embriagado, e logo ficou bem claro que não duraria muito. Em pânico, o campo liberal cometeu erro de dimensões gigantescas: permitiram que um burocrata pouco conhecido e absolutamente pouco interessante ou impressionante saísse de São Petersburgo para substituir Eltsin como presidente em exercício: Vladimir Putin.

Putin era burocrata competente, calado, discreto, cujo principal atributo pareceu ser a falta de personalidade. Era o que pensavam os liberais. Mas, rapaz... Que imenso erro de avaliação!

Imediatamente depois de nomeado, Putin agiu com a rapidez do raio. Surpreendeu todos, ao envolver-se pessoalmente na 2ª Guerra da Chechnia. Diferente do antecessor, Putin deu total liberdade aos comandantes militares para que guerreassem como achassem melhor. E Putin outra vez surpreendeu todos quando obteve acordo realmente histórico com Ahmad Hadji Kadyrov, para fazer a paz na Chechnia. Kadyrov comandara a insurgência durante a 1ª Guerra da Chechnia.

A popularidade de Putin atingiu a estratosfera, e ele imediatamente usou o evento a seu favor.

Num movimento realmente surpreendente, de virada histórica inesperada, Putin usou a mesma Constituição redigida e aprovada pelos russos liberais, para implementar uma série muito rápida de reformas cruciais, e para eliminar a base do poder dos liberais: os oligarcas judeus (Berezovksy, Khorodkovsky, Fridman, Gusinsky, etc.).  Também fez aprovar muitas leis destinadas a “fortalecer o poder vertical”, que dava ao Centro Federal o controle direto sobre as administrações locais. Assim, não apenas esmagou muitas das máfias locais, que já haviam corrompido e estavam infiltradas nos governos locais, como, simultaneamente, deteve, em pouco tempo, todos os vários movimentos divisionistas dentro da Rússia. Por fim, usou o que se chama “recurso administrativo” para criar o seu partido Rússia Unida, ao qual deu total apoio do estado. 

A ironia de todo esse processo é que Putin jamais teria conseguido fazer com sucesso tudo o que fez, se os liberais russos não tivessem, antes, inventado uma Constituição hiper-presidencialista, que deu a Putin todos os meios de que ele precisava para alcançar seus objetivos. Parafraseando Lênin, eu diria que os russos liberais deram a Putin a corda para enforcá-los.

O ocidente, é claro, rapidamente percebeu o que estava acontecendo, mas era tarde: os liberais haviam perdido o poder para sempre (se Deus quiser!) e a Rússia estava claramente sendo ocupada por uma terceira força que, antes, nunca tinha sido vista em ação.

Quem realmente pôs Putin no poder?

Eis a pergunta de 10 mil dólares. Formalmente, a resposta oficial é conhecida: a entourage de Eltsin. Mas é bem óbvio que outro grupo não identificado de gente manobrou para brilhantemente passar a perna nos liberais e enfiar a raposa dentro do galinheiro.

Considere-se que as forças pró-soviéticas haviam sido fragorosamente derrotadas em 1993. Portanto, não se tratou de ação de revanchistas nostálgicos, que sonhassem com a ressurreição da velha União Soviética. Nem é preciso examinar esse campo, cujos militantes, de fato, permanecem, até hoje, na oposição a Putin. Então... Quem?

Foi uma aliança de DUAS forças: elementos do ex “PGU KGB SSSR” e vários líderes-chaves da comunidade industrial e financeira. Examinemos essas forças, uma a uma:

Primeiro a PGU KGB SSSR: o braço de inteligência estrangeira da KGB soviética. O nome oficial era 1º Diretorado-Chefia do Comitê de Segurança do Estado da URSS. Em termos gerais, o equivalente do MI6 britânico. Não há qualquer dúvida de que era a elite da elite da KGB, e sua unidade mais autônoma (tinha seu próprio quartel-general na área sul de Moscou). Embora o PGU trabalhase em várias questões e campos, era também muito intimamente ligado ao, e interessado no, mundo da grande finança, do big business, na URSS e no exterior. Dado que o PGU nada tinha a ver com as atividades mais sórdidas da KGB, como a perseguição de dissidentes (que era função do 5º Diretorado) e que pouco tinha a ver com a segurança interna (prerrogativa do 2º Diretorado-Chefia), não aparecia no topo da lista de instituições a serem reformadas, simplesmente porque não era odiado como as partes mais visíveis da KGB.

A segunda força que pôs Putin no poder foram jovens saídos de ministérios-chave da ex-União Soviética, que trabalhavam com questões industriais e financeiras, e que odiavam os oligarcas judeus que mantinham Eltsin. Diferentes dos oligarcas de Eltsin, esses jovens líderes não estavam interessados exclusivamente em pilhar os recursos da Rússia para, adiante, se aposentarem nos EUA ou em Israel; queriam que a Rússia se convertesse em poderosa economia de mercado integrada ao sistema financeiro internacional.

Adiante, o primeiro grupo viria a ser o que chamo de “Soberanistas Eurasianos”; e os segundos converter-se-iam no que chamo de “Integracionistas Atlanticistas”.[5] Podemos chamá-los de “turma de Putin” e “turma de Medvedev”.

Por fim, não se pode esquecer que há também uma terceira força, que jogou todo o seu peso nessa parceria Putin-Medvedev – o povo russo, que, até hoje, sempre votou para mantê-los no poder.

Fórmula absolutamente brilhante, mas cujo prazo de validade venceu

Não há dúvida de que a ideia de criar essa “parceria” foi absolutamente brilhante: Putin arregimentaria os nacionalistas; Medvedev, o pessoal de orientação mais liberal. Putin teria o apoio dos “ministros do poder” (Defesa, Segurança, Inteligência); Medvedev, da comunidade dos negócios. Putin assustava suficientemente as autoridades locais para que obedecessem ao centro federal; Medvedev fazia EUA e União Europeia sentirem-se bem em Davos. Ou, dito de outro modo: quem se atreveria a ser contra o duo Putin & Medvedev? No máximo, apoiadores linha-duríssima da União Soviética; nacionalistas xenofóbicos pervertidos; liberais pervertidos pró-EUA; e judeus exilados. No máximo, esses: e é pouca gente.

Aliás... Quem se vê hoje na oposição a Putin? Um Partido Comunista à cata de nostálgicos da era soviética; um Partido Liberal-Democrata à cata de nacionalistas; e um pequeno partido “Just Russia” cujo único objetivo parece ser tirar votos dos outros dois e cooptar alguns dos liberais mais pervertidos. Em outras palavras: Medvedev e Putin eliminaram, basicamente, todo e qualquer tipo de oposição que mantivesse alguma credibilidade.

Como já mencionei em outros postados anteriores, há hoje claros sinais de sérias tensões entre os “Soberanistas Eurasianos” e os “Integracionistas Atlanticistas, a tal ponto que Putin já criou, em 2011, o seu próprio movimento (a “Frente Popular de Todo o Povo Russo [orig. All-Russia People’s Front]).[6],[7] 

Tendo passado os olhos pelos processos complexos que levaram Putin à presidência da Rússia, é preciso examinar também o que acontecia nos EUA durante o mesmo período.

Enquanto isso, os EUA foram neocon-detonados

Diferentes da União Soviética que basicamente desapareceu do mapa do planeta,  os EUA “venceram” a Guerra Fria (não é absolutamente verdade, mas é como os norte-americanos veem a coisa); e, tendo-se tornado a última e única real superpotência, os EUA imediatamente embarcaram numa série de guerras em terras distantes, para implantar a sua “dominação de pleno espectro” sobre todos, sobretudo depois dos eventos do 11/9. 

Mesmo assim, a sociedade dos EUA pós-11/9 tem suas raízes em passado mais distante: os anos Reagan. 

Durante a presidência de Ronald Reagan, um grupo que adiante passaria a ser conhecido como “neoconservadores”, ou “neocons”, tomou a decisão estratégica de assumir o completo controle do Partido Republicano, de suas instituições e think-tanks afiliados. Se, no passado, tantos ex-trotskystas inclinaram-se mais na direção de apoiar um Partido Democrata suposto de esquerda, o “novo Grande Velho Partido Republicano, renovado e melhorado”, sob o comando de Reagan, exibia traços extremamente atraentes para os neoconservadores:

1) Dinheiro: Reagan era apoiador incondicional da grande finança e do mundo corporativo. Seu mantra “o problema é sempre o governo” encaixava-se à perfeição na intimidade histórica que sempre houve entre Neoconservadores, Barões Ladrões, chefões mafiosos e grandes banqueiros. Para eles, desregulação significa liberdade de empreender – uma liberdade que faria a imensa fortuna dos especuladores e espertos em geral Wall Street.

2) Violência: Reagan apoiava firmemente o complexo industrial-militar dos EUA e uma política de intervenção em todos e quaisquer países do planeta. Aquela fascinação pela força bruta e – sejamos honestos – pelo terrorismo, também se encaixava perfeitamente na forma mentis do trotskystas-neoconservadores.

3) Ilegalidade: Reagan absolutamente não se deixava perturbar pela lei, internacional ou nacional dos EUA. Sim, nos casos em que a lei implicasse vantagens para os EUA ou para interesses dos Republicanos, então, sim, era cumprida com muitas solenidades. Caso contrários, os the Reaganites destratavam a sei, sem qualquer prurido.

4) Arrogância: sob Reagan, o patriotismo e um hubris imperial ganharam renovado prestígio. Mais do que jamais antes, os EUA viram-se como o único “Líder do Mundo Livre” a proteger o planeta contra o “Império do Mal”, mas também como únicos e superiores ao resto da humanidade (como aquele comercial da Ford, nos anos 1980s: “somos o número um, os primeiros, antes de nós, ninguém!” [orig. “we're number one, second to none!”)

5) Mentiras sistemáticas: sob Reagan mentir deixou de ser prática ocasional, embora regular na política, e tornou-se a forma-chave da comunicação pública. Reagan e seu governo podiam dizer uma coisa e, na sequência, o contrário do que acabavam de dizer, na mesma frase. Podiam prometer o que claramente não cumpririam (viram Star Wars?).  Podiam jurar solenemente e, em seguida, quebrar o juramento (caso dos Irã-Contras). E, se obrigado a enfrentar provas de suas mentiras, Reagan sempre repetia “Bem, não, não me lembro de ter dito isso.”

6) Messianismo: Reagan não só contou com o apoio de todas as mais ensandecidas seitas religiosas nos EUA (inclusive de todo o “Cinturão Bíblico”), como também se dedicou a promover grupos seculares messiânicos que pregavam uma mistura tóxica de xenofobia bem próxima do racismo, com fascinação narcísica por tudo que fosse patriótico, por ridículo ou estúpido que fosse, e que várias vezes beirou o culto deles mesmos.

Assim, se se soma tudo isso (dinheiro+violência+ ilegalidade+arrogância+mentira  sistemática+messianismo), tem-se o quê? 

Não tem ar de coisa conhecida, bem conhecida? Não temos aí uma perfeita descrição de sionismo e de Israel?

Não surpreende que os neoconservadores tenham voado em bandos cada vez maiores para esse novo velho Grande Partido Republicano! O Partido Republicano de Reagan serviu como perfeita placa de Petri na qual cresceu a bactéria sionista. E como cresceu! Cresceu muito. Muito.

Acho que seria razoável dizer que os EUA passaram por um longo processo, duas décadas, de “sionização”, que culminou na grande operação clandestina do 11/9, na qual tipos do Project for the New American Century (PNAC) [Projeto do Novo Século Americano][8] usaram o acesso fácil aos centros do poder nos EUA, em Israel e na Arábia Saudita para conjurar um novo inimigo – o ‘terror islamo-fascista’ –, o qual não só justificaria uma guerra planetária contra o “terrorismo”, mas, também, o mais incondicional apoio a Israel.

Há outros derrotados nessa evolução, especialmente o que chamo de “velho campo anglo”,[9] o qual, basicamente, perdeu o controle de quase todo o seu poder político doméstico e todo o poder de sua política exterior: pela primeira vez, um novo curso de política exterior[10] gradualmente começou a tomar forma sob a liderança de um grupo que, adiante, seria identificado como “Israel Firsters” [“Israel antes de tudo!”]. Por algum tempo, os velhos Anglos pareciam ter retomado os reinos do poder – no governo de George Bush Pai –, mas imediatamente perderam-nos outra vez, com a eleição de Bill Clinton. 

Mas o apogeu do poder sionista-conservador só aconteceu durante o governo de George W. Bush, que comandou um expurgo em massa de “Anglos”, tirados de posições chaves no governo (especialmente no Pentágono e na CIA). Previsivelmente, já com o pessoal que Bush Pai chamara de “os doidos do porão”[11] bem firmemente instalados no poder... os EUA rapidamente se aproximaram da beira do precipício de um colapso global: externamente, a simpatia massiva que o 11/9 angariara para os EUA converteu-se num tsunami de ressentimentos e ira; e internamente, o país estava diante de uma massiva crise bancária, que quase resultou na implantação de lei marcial nos EUA.[12]

The Moscow Times



E entra Barak Obama! – “Mudança em que se pode crer!”

A eleição de Barak Obama para a Casa Branca, foi evento histórico espetacular. Não apenas a maioria da população branca elegeu um negro ao posto mais alto do país (de fato, tratou-se de explícita expressão de desespero, muito mais do que de anseio profundo por mudança), mas porque, depois de uma das mais efetivas campanhas de propaganda e Relações Públicas da história, a vasta maioria dos norte-americanos e muitos, se não todos os povos, em todo o planeta, realmente acreditaram que Obama promoveria algumas mudanças profundas, significativas. A desilusão com Obama foi tão ampla, quanto as esperanças que milhões depositaram nele. 

Pessoalmente, sinto que a história registrará Obama não apenas como um dos piores presidentes que os EUA jamais tiveram, mas, também – e mais importante – como a última chance inaproveitada para que o “sistema” se autorreformasse. A chance passou, desaproveitada. E enquanto alguns, em desgosto profundo, descreviam Obama como “um Bush light”, entendo que seu governo pode ser descrito como “mais do mesmo, só que pior”. 

Tendo dito isso, há algo que, para minha perfeita felicidade, a eleição de Obama conseguiu: afastou (muitos, embora não todos) os neoconservadores, de muitas (embora não de todas) as posições-chave do poder; e reorientou (grande parte, embora não toda) a política externa dos EUA para uma linha mais tradicional de “primeiro os EUA”, normalmente apoiada pelos interesses dos “velhos Anglos”. Sim, sim, os neoconservadores continuam firmemente no controle do Congresso e da imprensa-empresa nos EUA; mas o Executivo está, afinal, por hora, de volta ao controle pelos Anglos (estou, é claro, generalizando: Dick Cheney não foi nem judeu nem sionista; e Henry Kissinger não pode ser descrito como “Anglo”). E, embora Bibi Netanyahu tenha recebido mais aplausos de pé no Congresso (29 vezes) que qualquer presidente dos EUA, o ataque ao Irã que Bibi desejava tão ardentemente não aconteceu. Em vez disso, Hillary e Petraeus foram mandados pra casa, dando lugar a Chuck Hagel e John Kerry. Pode não ser (e não é) “mudança em que se pode crer”, mas, pelo menos, é prova de que o Partido Likud já não controla a Casa Branca.

É claro que a coisa ainda não acabou. Se algo se pode concluir da galinhagem em curso entre a Casa Branca e o Congresso, na disputa pelo orçamento, com risco inerente de que os EUA deem calote nos credores, é que essa disputa está longe de terminar.

A atual matriz real de poder nos EUA e na Rússia

Já vimos que há dois partidos não oficiais na Rússia, engalfinhados numa luta mortal pelo poder: os “Soberanistas Eurasianos” e os “Integracionistas Atlanticistas”. Há também dois partidos não oficiais nos EUA, também engalfinhados numa luta mortal pelo poder: os Neoconservadores e os “velhos Anglos imperialistas”. Minha opinião é que, pelo menos por hora, os “Soberanistas Eurasianos” e os “velhos Anglos” estão ganhando a disputa contra seus respectivos competidores internos; mas os “Soberanistas Eurasianos” russos estão em posição muitíssimo mais forte que os “velhos Anglos” norte-americanos. Há duas principais razões para que assim seja:

1) A Rússia já passou por seu próprio colapso econômico & calote aos credores: e
2) A maioria dos russos apoiam fortemente o presidente Putin e suas políticas “Soberanistas Eurasianas”. 

Diferente disso, os EUA estão à beira de um colapso econômico e a claque dos 1%, que hoje governa os EUA é absoluta e profunda e sinceramente odiada e desprezada pela maioria dos norte-americanos.

Passado a imensa, profunda, dolorosa desilusão com Obama, mais e mais norte-americanos vão-se convencendo de que trocar o fantoche que habita a Casa Branca não faz nem sentido nem diferença. E que os EUA precisam, isso sim, urgente, de MUDANÇA DE REGIME.


A URSS e os EUA – de volta para o futuro?


É curioso, para os que se lembram da União Soviética do final dos anos 1980s, ver o quanto os EUA sob Obama tornaram-se parecidos à URSS sob Brezhnev: internamente, é caracterizado por um senso geral de desgosto e de alienação das pessoas, acionado pela inegável estagnação de um sistema apodrecido até o âmago. Um estado militar e policial extensivo, com uniformes por todos os cantos, enquanto a cada dia mais e mais pessoas são empurradas para um estado de pobreza abjeta. Uma máquina governamental de propaganda que, como no 1984 de Orwell, existe para propagandear sucessos, quando todos sabem que só fazem publicar e divulgar mentiras.  Externamente, os EUA espalharam-se por todo o mundo, e em toda parte são ou odiados ou ridicularizados. Exatamente como nos dias dos sovietes, os líderes dos EUA vivem em visível estado de medo, com medo do próprio povo, a ponto de se sentirem forçados a se autoprotegerem atrás de caríssima rede global de espiões e propagandistas, todos eles também em estado de terror permanente ante qualquer opinião divergente e para os quais o pior inimigo é o seu próprio povo. 

Acrescentem a isso um sistema político que, longe de cooptar os melhores cidadãos, aliena-os cada vez mais profundamente, ao mesmo tempo em que promove, para as posições de poder, os mais profundamente corruptos e imorais. Um complexo industrial-prisional e outro complexo industrial-militar, ambos em pleno crescimento, mas que o país não tem, simplesmente, dinheiro para continuar a sustentar. Uma infraestrutura pública em ruínas, combinada a um sistema completamente disfuncional de assistência à saúde, no qual só os ricos e bem relacionados conseguem bom tratamento médico. E, sobretudo, um discurso público terminalmente esclerosado, entupido de clichês ideológicos e absolutamente desconectado da realidade.

Jamais esquecerei as palavras de um embaixador paquistanês na Conferência da ONU Para o Desarmamento, em Genebra, em 1992, o qual, falando a uma assembleia de arrogantes diplomatas ocidentais, disse o seguinte:

“Os senhores parecem acreditar que venceram a Guerra Fria. Mas nem consideraram a possibilidade de que o que realmente aconteceu tenha sido, apenas, que as contradições internas do comunismo detonaram aquele comunismo antes de que as contradições internas do capitalismo deem cabo desse capitalismo de vocês?!” 

Desnecessário dizer que essas palavras proféticas foram saudadas pelo silêncio mais pétreo e foram logo esquecidas. Pois entendo que o homem acertou em cheio: agora o capitalismo  chegou a uma crise tão profunda como a que afetava a União Soviética no final dos anos 1980s. E há chance-zero de que saiba reformar-se ou, seja como for, modificar o capitalismo que há. A única saída possível é a mudança de regime.

Raízes históricas da russofobia das elites norte-americanas


Tudo isso – dito acima – posto, torna-se de fato muito simples entender por que a Rússia em geral, e Putin em especial, provocam ódio tão amplo, geral e irrestrito aos plutocratas ocidentais: depois de terem-se autoconvencido de que teriam vencido a Guerra Fria, hoje aqueles mesmos plutocratas têm de enfrentar um duplo desapontamento; de um lado, veem crescer a Rússia, em plena recuperação; de outro lado, veem o declínio econômico e político do ocidente, que parece estar-se convertendo agora em agonia dolorosa e lenta.

Em sua ira amarga e ressentida, os líderes ocidentais sequer percebem que a Rússia nada tem a ver com os atuais problemas do ocidente. De fato, aconteceu exatamente o oposto: o colapso da URSS criou nova demanda por dólares norte-americanos na Europa Oriental e na Rússia, o que deu alguma sobrevida ao sistema econômico internacional puxado pelos EUA (alguns economistas, como Nikolai Starikov, estimam que o colapso da URSS deu cerca de dez anos de vida, a mais, ao dólar norte-americano).

No passado, a Rússia sempre foi arqui-inimiga histórica do Império Britânico. Quanto aos judeus – a Revolução de 1917 trouxe grande esperanças para muitos judeus do leste da Europa, mas tiveram vida curta, a partir do momento em que Stálin derrotou Trotsky e o Partido Comunista foi expurgado de praticamente todos os membros judeus. Mais uma vez, a Rússia teve papel trágico na história dos judeus azquenazes, e isso, é claro, deixou marca profunda na visão de mundo dos neoconservadores, os quais são, até hoje, furiosamente russofóbicos. 

Alguém poderia contra-argumentar que muitos judeus são profundamente gratos ao Exército Soviético, que libertou judeus dos campos de concentração dos nazistas; e pelo fato de a União Soviética ter sido o primeiro país a reconhecer Israel. Mas nesses dois casos a gratidão recai sobre a UNIÃO SOVIÉTICA, não sobre a Rússia, que muitos judeus azquenazes ainda associam a políticas e valores anti-judeus.

Não surpreende pois que ambos, os “Anglos” e as elites judaicas nos EUA, alimentem horror quase instintivo, e muito medo, da Rússia, sobretudo se vista como ressurgente ou antiamericana. De fato, não erram, nessa percepção: a Rússia, sim, está definitivamente, sim, ressurgindo; e a vasta maioria da opinião pública russa é, sim, veementemente antiamericana, pelo menos no sentido em que “EUA” signifique o modelo civilizacional ou o sistema econômico dos EUA.  

O sentimento antiamericano na Rússia

O sentimento sobre os EUA passou por mudança dramática, depois da queda da União Soviética. Nos anos 1980s, os EUA não eram apenas ‘populares’: estavam absolutamente ‘na moda’. A juventude russa criou vários grupos de rock (alguns dos quais imensamente populares, e populares até hoje, como o grupo DDT,[13] de São Petersburgo), roupas e fast food à moda dos EUA eram os sonhos de todos os adolescentes russos, e muitos intelectuais pensavam sinceramente os EUA como “líder do mundo livre”. Evidentemente, a propaganda de estado da URSS sempre desejou apresentar os EUA como país imperialista agressivo, mas o esforço deu em nada: naquele momento a maioria dos russos gostava muito dos EUA. Um dos grupos pop mais populares dos anos 1990s (o Nautilus Pompilius) tinha uma canção que dizia (letra aqui traduzida [NTs]):

Adeus EUA,
oh
Onde jamais estive,
Adeus para sempre!
Pegue seu banjo
E toque na minha despedida
la-la-la-la-la-la, la-la-la-la-la-la
Seus jeans gastos
Ficaram apertados demais para mim
Nos ensinaram por tempo demais
A amar seus frutos proibidos.
[14]

Apesar de algumas exceções a essa regra, acho que, no início dos anos 1990s quase todo o povo russo, especialmente os mais jovens, haviam engolido toda a propaganda norte-americana, isca, anzol e vara. A Rússia, naquele momento era desanimadoramente pró-EUA.

O colapso catastrófico da URSS em 1991 e o apoio total, incondicional que o ocidente deu a Ieltsin e aos seus oligarcas mudou tudo isso. Em vez de tentar ajudar a Rússia, os EUA e o ocidente usaram toda e qualquer ocasião que encontraram para enfraquecer a Rússia no plano externo (envolvendo toda a Europa Oriental na OTAN, apesar de terem prometido que não o fariam). E, internamente, o ocidente apoiou os oligarcas judeus que estavam, literalmente, saqueando para fora da Rússia toda a riqueza russa, como vampiros sugando uma jugular; e o ocidente, simultaneamente, estimulou todas as formas imagináveis de separatismo. 

Ao final dos anos 1990s, as palavras “democrata” e “liberal” já eram palavrões. Uma piada do final dos anos 1990 é bom exemplo desse sentimento generalizado:

Um novo professor chega à classe:
– Meu nome é Abram Davidovich, e sou liberal. Agora, cada um de vocês levante-se e se apresente, como eu fiz.
– Meu nome é Masha, e sou liberal.
– Meu nome é Petia, e sou liberal.
– Meu nome é Joãozinho, e sou stalinista.
– Joãozinho! Por que você é stalinista?!
– Minha mamãe é stalinista, meu papai é stalinista, meus amiguinhos são stalinistas e eu também sou stalinista.
– Mas, Joãozinho, se sua mãe fosse puta, seu pai viciado em cocaína, e seus amigos, homossexuais... Você seria o quê?!
– Aí, sim, eu seria liberal.

Observem que, na piada, “liberalismo” e “judeus” já aparecem associados: o nome Abram Davidovich é nome tipicamente judeu. Observem também a inclusão de “homossexuais” entre a puta e o viciado em cocaína, e lembrem dessa piada sempre que avaliarem a típica reação dos russos à campanha anti-Rússia orquestrada por organizações ocidentais de homossexuais.

O efeito político desses sentimentos é bem evidente: nas últimas eleições, nenhum partido político pró-ocidente obteve votos suficientes para eleger sequer um representante ao Parlamento. E, não! Não foi porque Putin tivesse proibido os partidos pró-Ocidente (como vários propagandistas gostam de crer). Há atualmente 57 partidos políticos na Rússia, e alguns poucos são pró-ocidentes. O fato real e inegável é que a porcentagem de russos que manifestam simpatia pelos EUA e pela OTAN/União Europeia não chega a 5%. Pode-se também dizê-lo de outro modo: todos, absolutamente todos os partidos políticos representados no Parlamento russo são profundamente antiamericanos, até o muito moderado “Just Russia”.

Sentimentos anti-Rússia nos EUA?


Se se considera o ininterrupto fogo de artilharia de propaganda anti-Rússia nos veículos da imprensa-empresa ocidental, vale a pena examinar para saber se há ou não sentimentos anti-Rússia no ocidente. É difícil avaliar objetivamente, mas, como nascido na Europa Ocidental e residente por um total de 15 anos nos EUA, posso dizer que sentimentos anti-Rússia no ocidente são raros, praticamente inexistentes. Nos EUA, sempre houve forte sentimento de anticomunismo – que persiste até hoje –, mas, seja lá como for, a maioria dos norte-americanos conseguem estabelecer a diferença entre uma ideologia política que eles absolutamente não compreendem (mas detestam, mesmo assim) e o povo que, no passado, esteve associado àquela ideologia.

Os ‘políticos’ norte-americanos, é claro, na expressiva maioria, odeiam a Rússia, mas entre os norte-americanos poucos são os que nutrem sentimentos de oposição ou de temor contra a Rússia ou o povo russo. Para mim, isso se explica por uma combinação de vários fatores.

Em primeiro lugar, dado que cada vez mais pessoas no ocidente vão-se dando conta de que não vivem em democracia, mas numa plutocracia dos 1% mais ricos, todos tendem a ver com olhos mais céticos a propaganda oficial (foi exatamente o que também aconteceu entre os russos, nos anos 1980s).  Além disso, cada vez mais e mais pessoas no ocidente opõem-se à ordem imperial plutocrática que as empobrece e desempodera e as converte em servos das corporações; essas pessoas tendem a ser simpáticas à Rússia e a Putin, que “enfrentam os bastardos em Washington”. Mas, num plano mais fundamental, há o fato de que, numa bizarra virada histórica, a Rússia de hoje defende os valores ocidentais de ontem: a lei internacional, o pluralismo, a liberdade de expressão, os direitos sociais, o anti-imperialismo, oposição à intervenção militar contra estados soberanos, rejeição da guerra como meio para resolver disputas, etc.

No caso da guerra na Síria, a posição da Rússia foi absolutamente consistente e coerente, sempre na defesa da lei internacional; essa firmeza impressionou muita gente nos EUA e na Europa, e já se ouvem cada vez mais elogios a Putin, vindos de gente que, antes, nutria contra ele as mais terríveis suspeitas e profundas desconfianças. 

A Rússia, é claro, não é uma utopia, nem alguma espécie de sociedade perfeita, longe disso; mas o país tomou a decisão fundamental de tornar-se país *normal*, exatamente o antônimo de ser império global, e qualquer país normal aceita defender os princípios do ‘ocidente de ontem’, não só a Rússia. De fato, a Rússia é muito não-excepcional, na compreensão pragmática de que defender esses princípios não é questão de algum idealismo simplório, mas um objetivo político firmemente realista. No ocidente, os governantes e sua imprensa-empresa adestrada dizem aos povos que Putin é o perfeito mal, ex-ditador da KGB, grande ameaça para os EUA e seus aliados. Mas desde que as pessoas possam ouvir o que Putin realmente diz, poucos são os que não se percebem em perfeito acordo de opiniões com ele.

Numa outra engraçada virada histórica, assim como a população soviética procurava a BBC, a Voice of America ou a Radio Liberty para obter notícias e informação, hoje, cada dia mais gente no ocidente assiste aos programas de Russia Today, Press TV ou Telesur para obter informação mais confiável. Daí a reação de pânico de Walter Isaacson,  Presidente do Comitê de Presidentes de Redes de Comunicação [orig. Chairman of the Broadcasting Board of Governors] comissão que supervisiona a mídia norte-americana dirigida para audiências estrangeiras:

“Não podemos nos deixar ultrapassar e descartar por nossos inimigos, na luta pela comunicação. Já há Russia Today, a Press TV do Irã, a TeleSUR da Venezuela e, claro, a China também está lançando seu canal internacional de notícias, 24 horas no ar, com correspondentes em todo o mundo”.[15]

Gente como Isaacson sabem que estão lenta e inexoravelmente perdendo a batalha informacional pelo controle da cabeça e dos pensamentos do grande público.

E agora, com todo esse affair Snowden, a Rússia vai-se convertendo em porto seguro para tantos ativistas políticos que precisam salvar-se da ira do Tio Sam. Rápido exame pela Internet, ajuda a ver que a cada dia mais pessoas falam de Putin como “líder do mundo livre”, e há, até, quem já esteja recolhendo assinaturas pelo planeta, para exigir que Obama transfira a Putin o prêmio Nobel que recebeu. Fato é que muitos que, como eu, realmente combatemos contra o sistema soviético, estamos gostando muito de ver esse giro de 180 graus, em relação à posição mundial nos anos 1980s.

Elites ocidentais – ainda paralisadas, catatônicas, na Guerra Fria

O mundo mudou radicalmente nos últimos 20 anos, mas as elites ocidentais nunca mudaram e não mudam. Obrigadas a encarar uma realidade que as frustra, essas elites buscam desesperadamente re-combater a Guerra Fria, na esperança de re-vencer. 

Assim, afinal, se explica o ciclo infinito de repetição de campanhas de propaganda para denegrir a Rússia, de que falei no início desse postado. Tentam apresentar a Rússia como alguma espécie de nova União Soviética, com minorias oprimidas, encarceradas ou dissidentes assassinados, com pouca ou nenhuma liberdade de expressão, mídia monolítica controlada pelo governo, e aparelho sempre presente de vigilância contra os cidadãos. 

O problema é que essa leitura aparece com 20 anos de atraso, as acusação não convencem a opinião pública ocidental e têm tração zero dentro da Rússia. Na verdade, as tentativas para interferir em assuntos internos da Rússia têm sido sempre tão mal feitas, tão ridículas, que têm tido efeito de tiro saído pela culatra. Primeiro, as tentativas patéticas em que o ocidente se empenhou para criar uma revolução ‘colorida’ nas ruas de Moscou, até as tentativas contraproducentes para criar algum (qualquer) tipo de crise em torno dos direitos humanos na Rússia – e cada passo empreendido pela máquina de propaganda ocidental só fez reforçar a posição de Vladimir Putin e de seus “Soberanistas Eurasianos”, contra a facção dos “Integracionistas Atlanticistas” que há dentro do Kremlin.

Houve um simbolismo pungente, profundo, na mais recente reunião dos 21 países reunidos na Cooperação Econômica do Pacífico Asiático [orig. Asia-Pacific Economic Cooperation,APEC], em Bali. Obama teve de cancelar sua viagem por causa da crise do orçamento nos EUA; e Putin recebeu a homenagem musicalmente horrível, mas politicamente muito significativa, de um “Parabéns a você”, de aniversário, cantado em coro por todos os presidentes dos países do Pacífico na região. Pode-se imaginar a fúria, na Casa Branca, ao verem os “aliados” do Pacífico, a cantar serenatas de aniversário para Putin!

Conclusão: “Estamos em todos os lugares”

Em uma de suas mais belas canções, David Rovics[16] canta os seguintes versos, que quero registrar na íntegra, porque se aplicam direta e completamente à situação atual:

When I say the hungry should have food
I speak for many
When I say no one should have seven homes
While some don't have any
Though I may find myself stranded in some strange place
With naught but a vapid stare
I remember the world and I know
We are everywhere

When I say the time for the rich, it will come
Let me count the ways
Victories or hints of the future
Havana, Caracas, Chiapas, Buenos Aires
How many people are wanting and waiting
And fighting for their share
They hide in their ivory towers
But we are everywhere

Religions and prisons and races
Borders and nations
FBI agents and congressmen
And corporate radio stations
They try to keep us apart, but we find each other
And the rulers are always aware
That they're a tiny minority
And we are everywhere

With every bomb that they drop, every home they destroy
Every land they invade
Comes a new generation from under the rubble
Saying "we are not afraid"
They will pretend we are few
But with each child that a billion mothers bear
Comes the next demonstration
That we are everywhere.
[17] 


Esses versos são bela expressão da esperança que deve inspirar todos os que nos opomos ao Império EUA-sionista: estamos em todos os lugares, literalmente. 

De um lado, estão o 1%, os imperialistas Anglos e os sionistas-neoconservadores; do outro lado, estamos o resto do planeta e, potencialmente também 99% do povo dos EUA. Se é verdade que nesse ponto do tempo Putin e seus Soberanistas Eurasianos são o grupo mais forte e mais bem organizado dessa resistência planetária contra o Império, também é verdade que não estão no centro da luta e nem são cruciais na luta. Sim, sim, a Rússia pode desempenhar e desempenhará esse papel, mas como PAÍS NORMAL dentre outros PAÍSES NORMAIS, alguns pequenos e economicamente fracos, como o Equador; outros gigantescos e muito poderosos, como a China. Mas até o pequeno Equador foi enorme, gigante, quando garantiu refúgio a Julian Assange (e a China apequenou-se, ao pedir que Snowden, por favor, se escafedesse). Quer dizer: o Equador não é pequeno.

Seria ingênuo esperar que esse processo de “desimperialização” dos EUA possa acontecer sem violência. Os impérios francês e britânico só vieram abaixo depois do morticínio da 2ª Guerra Mundial; e os impérios nazista e japonês foram arrasados sob montanhas de bombas. O colapso do império soviético gerou comparativamente menos mortes, e a violência não aconteceu dentro, mas na periferia dos sovietes. Na Rússia, o número de mortos na miniguerra civil de 1993 contava-se aos milhares, não aos milhões. E, graças à grande bondade de Deus, nenhuma bomba atômica foi jamais detonada por agente da Rússia, em lugar algum.

Assim sendo, o que acontecerá quando o Império EUA-sionista-neoconservador afinal desabar, em colapso, sob o próprio peso? Ninguém sabe com certeza, mas pode-se pelo menos esperar que, assim como não apareceu qualquer grande força para salvar o Império Soviético em 1991-1993, tampouco há de aparecer alguma grande força interessada em salvar o Império Norte-americano. Como David Rovic diz tão bem, a grande fraqueza dos 1% que comandam o império EUA-sionista é que “eles são pequena minoria, e nós estamos em todos os lugares.”

Nos últimos 20 anos, os EUA e a Rússia seguiram rotas diametralmente opostas, e, ao que parece, trocaram os papéis. Esse pas-de-deux está agora chegando a alguma espécie de fim. Circunstâncias objetivas puseram os dois países em oposição, mas, isso, só por causa da natureza do regime em Washington DC. 

Os líderes russos podem bem repetir as palavras do rapper britânico Lowkey e declarar "I'm not anti-America, America is anti-me!" [Não sou antiAmérica, a América é que é anti-eu][18] e podem facilmente ser acolhidos pelos 99% dos norte-americanos que, saibam disso ou não, são também vítimas do Império EUA-sionista-neoconservador.

Enquanto isso, a gigantesca barreira de propaganda anti-Rússia continuará sem refresco, simplesmente porque parece ter-se convertido numa forma de psicoterapia para uma plutocracia ocidental que não vê saída e consome-se em pânico. E, como em todos os casos precedentes, essa propaganda não terá efeito algum.

Espero que, na próxima vez que começar o falatório sobre seja lá o que inventem depois da atual campanha ‘ecológica’ da ONG Greenpeace, todos vocês relembrem o que leram aqui.

Notas

[1] Foto em http://vineyardsaker.blogspot.com.br/2013/06/they-really-hate-each-other.html

[2] Vídeo em http://vineyardsaker.blogspot.com.br/2013/09/putin-calls-kerry-liar.html

[3]http://en.wikipedia.org/wiki/Khasbulatov

[4]http://en.wikipedia.org/wiki/Alexander_Rutskoy

[5] Sobre esses termos, ver http://vineyardsaker.blogspot.com.br/2013/03/russia-and-islam-part-six-kremlin.html e http://vineyardsaker.blogspot.com.br/2013/04/the-power-struggle-inside-kremlin-is.html.

[6]http://en.wikipedia.org/wiki/All-Russia_People%27s_Front

[7] Sobre isso, ver também http://vineyardsaker.blogspot.com.br/2013/03/russia-and-islam-part-six-kremlin.html e http://vineyardsaker.blogspot.com.br/2013/04/the-power-struggle-inside-kremlin-is.html.

[8]http://www.newamericancentury.org/

[9]http://vineyardsaker.blogspot.com.br/2007/05/daddy-whats-neocon-ethnic-mafia-wars-is.html

[10]http://vineyardsaker.blogspot.com.br/2008/04/acting-as-one-which-of-course-they-are.html

[11]http://www.informationclearinghouse.info/article11811.htm

[12]http://www.wnd.com/2008/10/77860/

[13]http://en.wikipedia.org/wiki/DDT_%28band%29

[14] Ouve-se em http://www.youtube.com/watch?v=fE29vH3H6do [NTs].

[15] 5/10/2010, Foreign Policy, http://goo.gl/wJBf

[16]http://en.wikipedia.org/wiki/David_Rovics

[17] Quando digo que os famintos devem poder comer / Falo pelos muitos / Quando digo que ninguém deve ter sete casas / se outros não têm nenhuma / Ainda que eu esteja preso numa cidade estranha / sem nada e ninguém além de um olhar sem vida / Ainda assim lembro do mundo e sei / Que nós estamos em todos os lugares / Quando digo que a hora dos ricos não demora a chegar / São muitas as vias, as vitórias, as pistas do futuro / Havana, Caracas, Chiapas, Buenos Aires / Quantas e quantas pessoas querem e esperam / e lutam pelo seu quinhão / Eles se escondem em suas torres de marfim / Mas nós estamos em todos os lugares / Religiões e prisões e raças / fronteiras e nações / Agentes do FBI e deputados e senadores / e rádios e televisões-empresas / Só querem nos segregar, nos separar / Mas sempre nos reencontramos uns os outros / E os que mandam sempre sabem bem / que eles são poucos, poucos, uma ínfima minoria / E que nós estamos em todos os lugares / Com cada bomba lançada / cada lar que põem abaixo / cada terra que ocupam / Uma nova geração nasce debaixo das ruínas / e diz “Não temos medo” / Vão mentir que somos poucos / Mas cada um filho que um bilhão de mães amamentam / dirão na próxima manifestação de rua / Que estamos em todos os lugares” [Tradução de trabalho, sem valor literário, só para ajudar a ler (NTs)](emhttp://www.youtube.com/watch?v=n8j8BmgeYLA).

[18] “Obama Nation”, do álbum Soundtrack To The Struggle, em http://www.youtube.com/watch?v=z4OI0GUCI_A





Courtesy of Tlaxcala
Source: http://vineyardsaker.blogspot.com/2013/10/1993-2013-is-twenty-years-long-pas-de.html
Publication date of original article: 12/10/2013
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=10745

 

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